Reportagem


Iminente

Um dia de rainhas

Panorâmico de Monsanto

23/09/2018


Terceiro e último dia de Iminente: as pernas já acusam o cansaço pelas muitas horas de pé e também já se sente aquela saudade antecipada por estes dias de Setembro que, desde há dois anos para cá, se tornaram no nosso momento preferido de final de verão. O último dia do Iminente, ao domingo, tem sempre um alinhamento mais reduzido e menos agitado na correria entre palcos e nesta edição foi o dia em que as mulheres foram rainhas.

À chegada damos de caras com essa força da natureza: Marta Ren e os seus The Groovelvets, um autêntico vendaval em palco, não só pelo poderio da sua voz avassaladora, mas também pela sua presença forte e sensual, que oferece mais momentos fotogénicos do que aqueles que as lentes dos fotógrafos conseguem registar. A soul nunca teve grande expressão em Portugal, o que explica o porquê de Marta Ren ser ainda um segredo relativamente bem guardado, mas acreditamos que pouco faltará para a vermos encher salas por todo o país. Uma mulher com uma garra assim não se deixa ficar, é daquelas que nasceu para conquistar um lugar entre as estrelas.

Num outro registo bem diferente e a quem nos parece assentar-lhe melhor o título de princesa, coube a Gisela João encerrar o palco principal desta edição do Iminente. Doce mas aguerrida no seu fado, uma extrovertida tímida, desbocada à boa maneira de uma mulher do norte, mas capaz de se emocionar com o sorriso de uma criança em frente ao palco, Gisela João é uma montanha russa de emoções em cada concerto seu.

Aliada a esta personalidade encantadora e peculiar, existe ainda aquela aura kitsch, quer na decoração de palco, quer nas suas roupas, adereços e maquilhagem carregada, que embora adoráveis por vezes nos parecem excessivos, em alguém que não precisa de nem metade disto para nos deslumbrar. São aliás os momentos mais singelos que fazem gostar mais dela – não é preciso ser-se criança para adorar a sua interpretação de “Sr. Extraterrestre”.

Por esta altura já devem desconfiar quem coroámos a rainha da noite certo? Já lá chegamos, antes falemos ainda de outras mulheres fortes neste Iminente: Sónia Balacó ofereceu-nos, literalmente, poesia das muitas páginas arrancadas aos sonhos dos seus cadernos. “The Poet is Present”, uma performance presente durante os três dias, foi um desafio solitário e estóico dentro do burburinho constante de festival, que nem sempre recebeu o cuidado e atenção merecidos. Existe ainda uma fraca cultura no que à poesia respeita por parte do público português. Aplaudimos, por isso, o Iminente por lhe dedicar um lugar na sua programação.

 

Nem só as mulheres brilharam neste domingo quente. Carlão, a quem daremos, porque não, o título de cavaleiro andante, tem álbum novo para nos mostrar. Entretenimento? saiu há poucos dias e vem com uma mão cheia de participações que infelizmente não marcaram presença no Iminente. De certo que mais adiante oportunidades não faltaram para ver Slow J, Manel Cruz e muitos mais subir a palco ao seu lado. Mas pudemos ver por exemplo Bruno Ribeiro brilhar em diversos momentos, como aquele tão prodigioso, quanto cómico, momento gospel. Assim como pudemos ver mais uma vez DJ Glue impressionar tudo e todos com o seu scratching. O ex Da Weasel sempre soube rodear-se de gente com talento. Almada está ali hoje em peso na Lisa e para já este Entretenimento? ao vivo soa-nos bastante bem.

Desafiamos qualquer pessoa a ver um concerto de Sara Tavares sem sair de lá com mais um par de rugas de expressão de tanto sorrir. A rainha da ginga conquista-nos com a sua simplicidade e com o embalo da sua voz açucarada, que não precisa nem de malabarismos ou de atingir aquelas notas impossíveis das quais sabemos bem ser capaz. E não precisamos também de a conhecer em pessoa, para perceber que é alguém que está de bem com a vida, e que nos faz a nós também dar mais valor ao lado bom dos dias. A música cabo-verdiana tem esse condão de nos apaziguar o espírito, desacelerando o batimento cardíaco daquela correria diária, como se percebeu também no último concerto da noite dos Fogo Fogo, que espalharam alegria na cave do Panorâmico.

E foi assim, de peito cheio, com as pernas cansadas mas sentindo-nos a flutuar que descemos pelo verde de Monsanto, despedindo-nos até para o ano do Iminente e desta sua nova casa mágica. A felicidade é feita de momentos assim.

Galeria


(Fotos por Inês Ventura)

sobre o autor

Vera Brito

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