Reportagem


ID - No Limits

A música urbana de hoje (e um pouco da de ontem e talvez da de amanhã) foi ao subúrbio mostrar-se

Centro de Congressos do Estoril

29/03/2019


© ID

Por mais incrível que pareça e dada a fauna que por lá vive, Cascais e Estoril têm algum historial de qualidade em matéria de música ao vivo – e, claro, Estoril À Noite, que bem encaixa no momento do festival. Seja pela actual localização ou pelo historial do mítico Cascais Jazz, quase que parece mentira um evento deste calibre numa zona cheia de tanta gente imbecil, arrogante, vácua e caloteira – em todas as classes, que ali ninguém é inocente. Se a transferência do Cool Jazz Festival para Cascais foi um bálsamo, a vinda/estreia do ID – No Limits tornou o Monte Estoril interessante por duas noites. Com o Casino Estoril ao lado, exige-se a piada fácil: será que a roleta daria sorte ou azar?

Pegando na fórmula deixada pelo Lisboa Dance Festival (e no cubo metálico que recebeu os visitantes ao Estoril), o ID expandiu o conceito, repetiu nomes (Shaka Lion à cabeça) e equilibrou o protagonismo. Distribuídas por quatro palcos (um palco maior, um auditório e duas salas de conferências convertidas em palcos pequenos), as propostas formaram um pot-pourri de música dita experimental contemporânea, toda ela de pendor urbano e cosmopolita: desde uma mescla de Portugalidade no produto nacional em cartaz até produtores e artistas da América do Norte e do Sul.

Pontapé de saída pelas 20h30 de sexta-feira com Colónia Calúnia, o mais recente (leia-se relevante) colectivo nacional de hip hop. Os Colónia Calúnia não têm canções, têm rajadas; em menos de três minutos e umas poucas estrofes (danem-se as rimas) passam a mensagem quasi-niilista e de decadência mental e urbana, tão bem cristalizada em [caixa] (2018).

O bando de Metamorfiko, Secta e demais rapaziada dividiu as tropas em duas actuações distintas numa só. A caneta blindada, o caixão, um a cappella e os pontapés na porta da casa de chuto (por oposição ao pontapé nas costas dos Conjunto Corona) abriram com gloriosa chave ferrugenta o ID.

E, bom, festival que é festival tem de ter as malditas sobreposições – essa praga oriunda da logística e de cartazes bem escolhidos. Velho preferido nosso, Vessel, o produtor de Bristol, renovou a parceria com Pedro Maia (já vulto das projecções) e estreou o auditório, mais um espaço de acústica admirável.

Esta não seria a típica actuação de Vessel, de porrada, tronco nu e lanterna na boca; o seu mais recente trabalho, Queen of Golden Dogs, é atípico na sua obra, com muitas das BPM a darem lugar a angústia sonora. Poder-se-á dizer que a influência da composição religiosa é tal que até parece que Vessel se foi baptizar ali ao lado na Igreja de Santo António (e tocar num casamento de betinhos, já agora – queriam eles!).

Mais reflexivo, um começo em relativa calmaria, acompanhando as projecções o coro de Torno-me eles e nau-e (For Remedios). Por entre incursões na mata e numa pedreira e representações de várias personagens, bem poderia ser coisa engendrada por Pessoa. Vessel no som e Maia no vídeo mantêm-nos sentados, não carecendo de se puxar pelo cerebelo para coordenar a dança, antes para acompanhar a grande peça que é Paplu, com ou sem chuva nos ecrãs. Actuação de topo do festival, ponto final.

De seguida, descer as escadas para outro nome de letras gordas do cartaz, Madlib. Um dos grandes magos da produção do hip hop de todos os tempos, pegou no material que o inspira e veio mostrá-lo em formato DJ set. Não chamaremos desilusão ao que apresentou, mas foi de tal modo inconsistente que não poderemos classificar de destaque do festival.

Por entre a mostra de produção do Norte da Califórnia e uma bem recebida incursão pelo g-funk quando ia mais adiantado, Madlib, o grande mestre, ajudou a demonstrar que os maiores desta vida não dão grandes DJs; o entusiasmo por revelar o gosto pessoal é tal que ofusca durante demasiado tempo o pulso da sala. Distribuiu alguma simpatia pelos presentes, sempre a ver se sacava alguma ganza ao público, sem esquecer o inquérito: “where my drinkers at? Where my pill-poppers at? Where my smokers at?”; se por timidez ou sovinice, as vozes só ulularam à terceira tentativa.

Demasiado relaxamento para uma obra tão grande, mesmo tratando-se de um DJ set. Certo é que o público foi saçaricando, estimulado pelo álcool e sabe-se lá mais o quê. Aliás, “saçaricar” é mesmo o verbo adequado ao ID – No Limits. Praticamente toda a oferta a isso convida, querendo-se então que a experiência musical (pós) contemporânea tal envolva.

Prosseguia a montra de bom produto nacional, com Pedro Mafama no auditório. Já veterano destas andanças da nova música contemporânea portuguesa, são inevitáveis as comparações com Conan Osiris (agora leva acento). Certo é que Mafama tem já alguns anos de carreira e o seu “cozido à lisboeta”, não tendo o cosmopolitismo sónico da música de Conan, tem tudo acertado: podíamos imaginá-lo pela Graça a marialvar, devidamente musculado por um auto-tune que não fica nada mal (coisa rara) e cativando o público. Novos fados? Pois que talvez.

Os seus gestos replicam com fidelidade o conteúdo das suas letras. Mafama ora mostra-se sofrido, ora solto e enérgico, sem perder o fio à meada, devidamente enquadrado pela DJ e produtora, que a todos deu música. O recente EP Tanto Sal soa ainda melhor ao vivo e com uma autenticidade patente em malhões como Jazigo. Será cedo para exigir Pedro Mafama no Festival da Canção 2020? Se a estranja gosta assim tanto de Lisboa, então que testemunhe a alma neo-lisboeta de Mafama.

IAMDDB (ou Diana de Brito) foi destaque do primeiro dia. De carreira construída no Reino Unido, revelou-se filha de Cascais; confessou ter ido matar saudades a esse monolito chamado Cascaishopping e apresentou-se como uma Kelela menos sofisticada (por ora), mas remetendo para uma Ms. Dynamite (lembra-se dela?). Por entre o trap e as mais recentes evoluções do R&B – sempre com o Reino Unido contemporâneo no ADN – foram preenchidas as quotas de manifestação de individualidade na música urbana desta década (contem-se quantas vezes Diana repetiu “IAMDDB”) e de títulos crípticos num quasi-SMSês, como KEEPITG, sem perder a frescura.

Um público conhecedor da sua obra sustentou uma actuação bem conseguida, para uma geração de gente que resolve os problemas da vida com uns McFlurry no centro comercial mais próximo e umas ganzas lá no bairro. Quer no Monte Estoril, quer em Manchester.

Cancelamento de última hora de Moullinex obrigou a dose dupla de Xinobi no festival – um e outro fundadores da Discotexas (também gerida por Hugo Moutinho/Mr. Mitsuhirato), editora que ajudou a construir este tal som da Lisboa hodierna. Mal nenhum, dado que serviu a dose de house do costume (isto enquanto DJ), aumentada pelo seu recente Aguas.

Nova sobreposição/dilema: prosseguir para uma sala de reuniões e ver Jacques Greene ou ficar no maior palco e esperar por Pearson Sound? Repartição pouco salomónica, atenta a nossa afeição pela obra de Greene, aliás Philippe Aubin-Dionne, produtor canadiano que leva quase uma década disto (da nossa parte, desde a audição do belíssimo EP The Look, em 2011).

Selecção ecléctica, dentro da veia de Greene: de uma coluna vertebral do deep house nascem samples que remetem para o r&b e o hip hop de noventas, espécies de easter eggs para bom ouvinte desvendar. Sala praticamente cheia que saiu rendida (e a pedir mais) ao mestre.

Noite encerrada com alguns minutos de Pearson Sound (ou David Kennedy), que se encontrava numa toada igualmente de (acid) house com toques de garage UK – ou de ligeira acidez festeira. Se Greene teve casa praticamente cheia durante mais de uma hora, o público acabou por acorrer a Pearson Sound em número razoável a partir do fim da actuação daquele.

Numa última perspectiva do recinto, viu-se fila tremenda no segundo piso para entrar em Shaka Lion e Nigga Fox, mas a nossa batida era já a do toque de caixa de retirar em boa ordem.


sobre o autor

José V. Raposo

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