“A Lenda de Miragaia” (1931), dado como perdido, é reencontrado numa feira de antiguidades

A Cinemateca Portuguesa recebeu em depósito A Lenda de Miragaia (1931), um dos primeiros filmes de animação em Portugal, até agora considerado perdido. O negativo, em formato de película de nitrato de celulose, foi encontrado à venda numa feira de antiguidades em Lisboa por Duarte Veloso, cinéfilo e frequentador habitual da Cinemateca, que o adquiriu ao suspeitar da sua origem portuguesa. Ao investigar, percebeu que tinha em mãos um filme do qual se desconhecia qualquer material fílmico.
Encontrado num sábado, o negativo foi depositado no ANIM — Arquivo Nacional das Imagens em Movimento na quarta-feira seguinte, onde foi inspecionado e a sua identificação confirmada. O material encontra-se em bom estado físico e aparenta estar completo.
Uma técnica rara no cinema português
Realizado por Raúl Faria da Fonseca e António Cunhal, irmão de Álvaro Cunhal, o filme utiliza a técnica de animação de silhueta, a mesma usada na primeira longa-metragem de animação europeia, As Aventuras do Príncipe Achmed (1926), desenvolvida e aperfeiçoada por Lotte Reininger. A produção, da Ulyssea Filme, foi feita com recurso a uma câmara escura, fotograma a fotograma, totalizando 28.400 fotografias isoladas, segundo Faria da Fonseca. António Cunhal trabalhou sobretudo como pintor e ilustrador, e a sua contribuição para o filme conjetura-se ter sido no domínio da técnica de animação de silhuetas.
O negativo será preservado, digitalizado e será tirada uma cópia para exibição em 35mm. No ano em que se comemoram os 30 anos da inauguração do ANIM, a Cinemateca Portuguesa programará a sua exibição assim que a preservação esteja assegurada.