A cada vez que se fala na mudança estilística radical de alguma banda que tenha acrescentado um elementozinho novo que seja, algures estarão os Ulver a rir-se à fartazana. Ainda serão dos casos mais extremos de “camaleonismo” que se registe. Tinham que fechar o ano de 2025 com mais uma troca de voltas, uma visita serena a esta “Neverland”.

O conjunto norueguês que estava lá na génese da sua vaga de black metal e que já andou por todo o lado, clássico, experimental, electrónico, mais outra coisa qualquer, andava realmente focado nos sintetizadores. Aliás, andava a fazer synthpop com algumas das suas canções mais acessíveis, orelhudas e até simples. Não há qualquer mal em admitir que um disco como o “Flowers of Evil” ainda tenha rotações regulares. Era bom. Mas antes que se fartassem do altar voltado para os Depeche Mode e outros contemporâneos que tal, vamos lá noutra direcção. “Neverland” é um álbum mais ambiental, na mesma electrónico, atmosférico, por vezes minimalista, mais à procura da paisagem do que da canção. Poderá trazer à mente uns Tangerine Dream mais agradáveis, por vezes com alguma electrónica desafiante, como se o Aphex Twin não nos quisesse assustar tanto.

As primeiras três faixas são um crescendo ambiental, até deixar entrar batidas mais dançáveis em “People of the Hills”, que abre caminho por outras aventuras electrónicas que por vezes até se encostam ao post-rock, um pouco à maneira do que vão fazendo uns 65daysofstatic. Recupera o minimalismo em alguns temas, trazendo energia de volta no final em “Welcome to the Jungle” (não, não é essa) e a quase solarenga “Fire in the End”. Quase alinha em modas do synthwave ou do psybient sem se estabelecer lá. É um disco realmente muito agradável de se ouvir, pecando talvez por se revelar muito simplista para uma banda tão experimental como os Ulver. Têm aqui umas belas composições para nos prender a atenção, mas “Neverland” acaba por ficar como algo feito com muita segurança e que por vezes parece um projecto à parte e não um disco “a sério”. Mas assim que nos acostumarmos ao ambiente, já podemos seleccionar umas faixas favoritas que terão a sua repetição. “One off” ou início de uma nova etapa? São os Ulver. Quem raio sabe?


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