Percursos difíceis para quem parece ter conseguido tudo tão facilmente. Ali ao virar do milénio, uns putos descabelados de Manhattan traziam um álbum aparentemente simples, mas que viria a servir como um dos principais pontos de partida para o revivalismo do garage rock e do pós-punk que definiria o indie/alternativo da década que se seguia. E assim só, um “Is This It” tornou-se dos maiores e mais importantes discos de sempre. O problema é sempre seguir isso e é bem sabido que os anos seguintes dos The Strokes tiveram altos e baixos. Vários regressos, com diferentes efeitos. Um auto-revivalismo de luxo em “The New Abnormal” e mais uma espera por este “Reality Awaits”.
Que já vem cheio de experimentalismos e coisas bizarras porque isso tem a sua graça. Aquelas coisas arriscadas que podem resultar ou não. O pop revivalista e vigoroso de “The New Abnormal” resultou lindamente. Para “Reality Awaits” ficou a esquisitice. E somos a favor disso, por aqui defende-se sempre qualquer escolha estilística mais fora da caixa, aquilo que o artista queira fazer. Mas também é o tipo de sítio onde temos que mandar algumas mais azedas e temos mesmo que dar o destaque negativo ao autotune estilístico que Julian Casablancas decide empregar e que se sobressai como um polegar enfaixado. Utilizado só porque sim, pelo efeito, mas em demasia e a parecer um brinquedo que descobriu durante a crise de meia-idade. Obriga-nos mesmo a aconselhar avançar a “Psycho Shit” para o indie mais familiar e reconfortante de “Dine n’ Dash” e procurar momentos em que algo mais dançável, mas a lembrar o pop rock upbeat que andavam contemporâneos seus a fazer deste lado do Atlântico, como em “Going to Babble On” ou “Going Shopping”.
Não nos importamos com os Strokes neo-psicadélicos, com cheiros de pop, muito pelo contrário, foram muito bem-vindos em “The New Abnormal”. Nem com uns Strokes que vão ao dream pop buscar ambientes, nem com experiências mais inesperadas. Mas excluíam-se algumas opções para melhor desfrutar um disco que ainda tem o seu potencial à vista. A recompensa até fica para o fim, para uma ode a Radiohead, uma bem Paranoid Android-esca “Tyrants of the Mellow Moon”, que mesmo assim nos deixa a pensar o quão melhor seria com a voz de Casablancas normal. Experiências boas e menos boas, alguns momentos familiares, canções pegajosas, outras mais aborrecidas e fica mesmo a faltar um pouco de coesão neste “Reality Awaits”. Há um bom disco assim meio camuflado, no meio disto tudo. Era só organizar umas ideias. E excluir outras.