Tanya Tagaq é uma multi-talentosa artista canadiana, mais precisamente uma indígena inuite, que nunca se poupou no activismo de defesa de povos indígenas e de vociferar o seu ultraje e raiva pelas maldades do colonialismo e do homem em geral. Fá-lo a partir de várias artes, mas destaca-se o seu impressionante throat singing que já originou obras maravilhosas, mas também assombrosas, sempre com a temática pesada a complementar. Como olhar para o mundo à nossa volta não parece ficar mais fácil a cada dia, não vai ser agora que Tanya Tagaq vai abrandar ou suavizar. É quando sai uma obra tão experimental como colérica, como é este “Saputjiji”.
É tudo tão subtil como um título como “Fuck War”. Que abre logo as hostes e prepara-nos para o disco mais experimental do trajecto de Tagaq, algo que já começara em “Tongues”. Nunca fez música acessível, mas o foco foi sempre maior na sua voz. Em “Saputjiji”, serve-se de muitos mais elementos, recorre muito ao spoken word, como já fez antes, especialmente em discos de leitura de poesia, brinca com distorção electrónica, deixa-se auxiliar por convidados, e intercala tudo com o seu inconfundível throat singing. Tanto pode ter algo mais ruidoso como “Foxtrot”, como algo mais em crescendo a culminar num trip hop mais caótico como “When They Call”, como uma curta intervenção que lembre mais o “Tongues” em “Lichens”, ou uma imersão tribal por um power electronics dentro, como o de “Black Boot”. E interlúdios significativos, que isso é que é raro.
Torna-se algo obsoleto descrever “Saputjiji” dessa forma quase técnica, olhando a cada elemento individual a que recorra. É como uma distracção da verdadeira experiência, do desafio às sensações que o disco é. Como se ignorássemos tanto o conforto do lado mais esperançoso, como o desconforto do mais caótico, já que os dois parecem conviver aqui. Para quem se impressionou inicialmente com as suas brincadeiras e acrobacias vocais, para quem aprecia excentricidades de artistas comparáveis como Björk ou Mike Patton (tudo boa gente que ela conhece bem e com quem já trabalhou), “Saputjiji” é um desafio maior, tem muito mais a passar-se que precise de mais umas audições para realmente se entranhar. Para que a conclusiva “Imiq” se sinta mesmo como o reencontro com a luz depois de uma experiência espiritual fora do corpo. E, numa discografia sem tiros ao lado, “Saputjiji” será um notável destaque.

