Linda Martini

Sirumba
2016 | Universal | Rock

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Sirumba é nome de brincadeira de criança e faz-nos recuar ao recreio da escola, onde ninguém queria ser polícia e herói era ser-se ladrão, pelo menos até soar aquele segundo toque para a aula. Haverá ainda quem brinque a isto nos dias de hoje? Ou anda tudo com pressa de crescer, agarrado a um mundo virtual onde já ninguém quer parecer a idade que tem? Entregues a uma certa nostalgia, estes são alguns pensamentos que cruzam a mente, ao ouvir a primeira faixa “Sirumba”, que dá nome ao mais recente álbum dos Linda Martini, o seu quarto LP em uma década de discos e mais um par de anos de banda.

Mais do que nostalgia ou brincadeira, “Sirumba” parece ser símbolo de algo maior, uma metáfora para este jogo que é viver, ganhar e perder, errar até acertar, que jogamos muitas vezes “sem saber bem o quê”. Mas extrair significados às letras dos Linda Martini pode ser como disparar no escuro, as suas palavras escondem muitos sentidos, encerram enigmas que são em si a solução e cabe a cada um encontrar reflexos com a bagagem que a vida lhe deu. Os títulos das músicas também são tudo menos convencionais e “Unicórnio de Sta. Engrácia”, a segunda faixa, arrecada o prémio de originalidade. Foi o primeiro single retirado de Sirumba e é a sua música mais pulsante, onde o ritmo acelerado imposto pela bateria e as vozes do refrão levam-nos à sonoridade de PAUS.

É esta forte componente rítmica, a par da voz e da palavra que encontram em Sirumba mais espaço para respirar, que marcam o compasso naquela que será a guinada de direcção mais assumida dos Linda Martini em toda a sua discografia. Não quer isto dizer que durante todo este tempo a banda tenha seguido uma linha recta nos seus discos. Recordamos no início a forte associação ao post rock com o LP de estreia Olhos de Mongol, que se espraiava em instrumentais densos e crescendos viciantes. Um rótulo que quiseram romper em Casa Ocupada, mais na cara e imediato, aproximando-os do universo cru do punk rock. Turbo Lento por seu lado parecia ser mais fácil de assimilar, com músicas a respeitar as estruturas clássicas. Sim, ao longo dos anos, os Linda Martini têm arriscado várias nuances na sua música, mas em todos estes três álbuns a explosão fazia-se sentir a quilómetros de distância, com prego a fundo no pedal de distorção das guitarras e baixo, num tremor muitas vezes capaz de rebentar a escala de Richter.

Em Sirumba a explosão deu lugar à implosão, o atropelo cedeu portas à contenção e o ímpeto da juventude encontrou a serenidade dos anos. Em bandas que nos dizem muito, com álbuns que marcaram fases das nossas vidas, há um egoísmo natural em esperar que nada mude, queremos continuar a reencontrar as mesmas emoções de sempre. Mas ninguém é a mesma pessoa de há anos atrás e os Linda Martini seguramente também não o são. São hoje mais reconhecidos (não é para todos encher um Coliseu), mais experientes, melhores músicos e têm outras inquietações próprias do amadurecimento. A melancólica “Bom Partido”, na sua cadência lenta, traz consigo um sentimento de derrota perante a vida e as pressões sociais, um homem e uma mulher expõem frustrações de uma vida a dois que sentem que não foi escolha sua e são “felizes na medida em que se pode ser feliz”. “Farda Limpa” é uma crítica à rotina do trabalho, de picar o ponto e pagar as contas, um ciclo que preenche uma vida vazia até se apagar, sem um som, sem existir – não dizem que quando uma árvore tomba na floresta sem ninguém a ouvir, talvez não seja real?

Gravado nos estúdios HAUS, a sua nova casa aberta a muitos outros músicos portugueses, Sirumba foi composto em ambiente familiar, as decisões musicais foram tomadas com tempo e cabeça, e isso também se reflectiu na produção final, meticulosa e trabalhada. E é no final que surgem duas verdadeiras jóias deste disco, “Dentes De Mentiroso” e “O Dia Em Que A Música Morreu”. A instrumental “Dentes De Mentiroso” tensa, feita de crescendos controlados, prepara-nos para a despedida que se faz cruel, pois seríamos capazes de ficar a ouvir indefinidamente os seus versos finais “e a vida acontece aos outros / dentes de mentiroso”. E por fim “O Dia Em Que A Música Morreu”, a apoteose de Sirumba e o seu paradoxo, que para quem já teve a oportunidade de testemunhar ao vivo sabe que é como desembaraçar um emaranhado de fios no fundo do estômago e a certeza inabalável de que enquanto os Linda Martini tiverem discos para nós a música nunca morrerá.


sobre o autor

Vera Brito

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