Sigh – Goh-Ka

por Christopher Monteiro
Ano 2026
Estilos Metal progressivo, Black metal avant-garde
Editora Peaceville Records
Destaques Kuso-shi 1, 2 and 3, Anzenshokon, Unputenpu
Sigh – Goh-Ka
8.5/10

Nem parece, mas já vão quase quatro décadas desde que os Sigh apareceram no panorama extremo internacional, vindos do Japão, e estabeleceram-se como uma das mais intrigantes e deliciosas esquisitices que podiam existir na música pesada. Muitas mutações estilísticas depois (iam ser estes a colocar amarras na sua música?), e também com muitas mudanças de alinhamento (sendo agora praticamente um projecto do mentor Mirai Kawashima e a sua esposa Dr. Mikannibal, acompanhados de vários músicos de sessão), chegam a “Goh-Ka” como uma banda que está naquele ponto de… Fazer o que lhes dá na real gana.

Se algo soa familiar em “Goh-Ka”, é porque já estamos familiarizados com as excentricidades de Kawashima, mas não é por isso que podemos contar com já saber o que possa sair de cada disco. Em “Goh-Ka” continua uma redução do black metal, mais reduzido a alicerce, nem que seja nos blastbeats, com as guitarras pesadas já mais baseadas noutros estilos. O que sobe à superfície e domina isto é mesmo o folclore japonês, através de instrumentalização tradicional, o verdadeiro “MVP” destas canções que não vão ter uma estrutura usual. Mas como os Sigh nunca foram banda de serem inventivos só porque sim, as composições mais tresloucadas correspondem às de um disco de metal progressivo muito completo e inovador, capaz de justificar as influências de fora (volta a realçar-se o folclore japonês, que logo ali na “Kuso-shi 1,2 and 3”, a abrir, fazemos uma tremenda viagem no espaço e no tempo).

Ou é prog rock mesmo. Do clássico, que isto às vezes, por entre sintetizadores, flautas e outras passagens acústicas, lembra mesmo algo dos 70s, como em “Anzenshokon”, ou quase space rock a fechar, em “Kuso-shi 8 and 9 – Mettaijakujo”. Para completar, um conceito interessantíssimo (o disco acompanha e descreve várias fases da decomposição de um cadáver, aliado a uma ascensão espiritual de inspiração budista) e até uns convidados de luxo, do meio (detectaram o solo do Mikael Akerfeldt em “Unputenpu”?). E “Goh-Ka” é mais um disco à Sigh, novamente a soar completamente diferente. Um disco de prog rock com muitas mutações algo monstruosas por cima. Um disco de folk japonês com muito peso à mistura. Um disco de algo que já foi black metal, mas prefere ser difícil de descrever. Um disco teatral e exigente, onde não deixa de haver espaço para canções e passagens acessíveis. O canto de uma misteriosa geisha em dueto com um maluco a soltar variados tipos de berros e loucura. Com tanta descrição, só podíamos estar a falar dos Sigh.


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