“Perfecth”, na aparente imperfeição da sua grafia, baseia-se nas suas próprias amolgadelas. Como um papel que ganha encanto depois de amarrotado. É exactamente o disco que sai de um Josh Homme ainda com tumultos familiares e de saúde em mente, inicialmente trabalhado quando ainda se encontrava no meio do turbilhão. E não vamos tentar enganar alguém: existem mesmo mudanças estilísticas significativas neste disco, mas o encanto está no quão Queens of the Stone Age continua a ser.
A tal imperfeição abre portas para a vulnerabilidade, a personagem principal deste “Perfecth”. Ou melhor, Josh Homme, no seu estado mais vulnerável, é o narrador participante desta trama musical que, sem puxar daqueles riffs grosseiros que criaram clássicos, é sempre feito com aquele esgar provocador, com dente de ouro, e um copo de whisky por perto. Reconhece-se alguma dessa ginga de um “Era Vulgaris”, mais numa “Insignificant Other”, algo mais trevoso e cinemático do “…Like Clockwork” numa “Where the Goth Girls At?”, e até um funk dançável à moda de um mais divisório “Villains” em “Sunday”. Mas há pouco throwback neste disco, pelo menos no que toca a referências a outros discos, pouco mais do que uma visita de Dave Grohl na faixa final. De resto, até está aqui um Homme muito nostálgico, a recordar a sua infância, os seus tempos mais negros, a sua descida e visita até às portas da morte, onde enfrenta a sua própria mortalidade e encara e se arrepende dos seus erros. O resultado é um álbum maduro, mas de quem viveu muita dor e mágoa. Tem marcas. Que soam bem.
E, por isso mesmo, pode não ser imediatamente compreendido por alguns fãs. Que poderão reduzir isto a uma curta compilação de músicas muito calminhas para eles, e talvez compreendam a intenção tão bem quanto compreendem os “erros de produção e mistura” de “Mono”. Menos stoner, mais atmosferas psicadélicas sobre blues e folk acústico, que é bem possível que nunca os tenham ouvido no estado em que estão em “From the Cliff” ou “Easy Street”, por muito que já tenham tratado o acústico e outros arranjos (mas uma obra-prima como a “Mosquito Song” só se faz uma vez). Assume-se como imperfeito e ganha imenso com isso. Ainda estará na fase de ser estranhado por muitos, mas com certeza que acabará por se entranhar.