Priscila da Costa podia já ver-se de mãos tão cheias, ao ponto de querer abrandar com algumas coisas. Mas nem por isso. Parece sentir-se muito confortável assim tão ocupada, dando seguimento ao projecto Ptolemea, que já singrara com as suas mutações no anterior “Balanced Darkness”, mesmo metendo um grande disco pelo meio, que foi o “Vértice” dos Sinistro.

Kali” é o novo disco de Ptolemea, e com as mesmas referências do seu antecessor, e com novas influências (e até participações) do desvio nos Sinistro, acaba por se tornar um óptimo seguidor de ambos. Se ambos têm uma carga emocional e introspectiva forte, se têm referências que se assemelham e se até são ambos de influências multi-facetadas, então a distância entre elas não era assim tão ampla. E o que ambos colocassem sobre a mesa, “Kali” baralha e ainda lhe acrescenta mais umas quantas coisas, a encaixar tão bem. Dividida entre as duas línguas, português e inglês, também a própria mood e ambiente do álbum se divide. A tal “destruição e renascimento” que a deusa Kali representa, e que será a própria Priscila a apontar como referência principal.

Musicalmente, também tem várias cores à disposição para pintar isto. E serve-se de bastantes, enquanto assume um amadurecimento nas suas composições. Metaliza canções com a mesma facilidade com que as despe aos básicos emocionais e atmosféricos. Está tudo disposto de forma a que também caiba um fado como a “Gaivota” aqui (e é essa mesma “Gaivota”, portanto podem cantar com ela), que chega já depois de uma catarse como a de “Guilhotina”. Com tanto de cantautoras soturnas e melancólicas como Chelsea Wolfe, Emma Ruth Rundle ou Anna von Hausswolff, como de uma madrasta de um reino mais fantasioso como o de Kate Bush. Atmosferas de Katatonia, Anathema ou, claro, Sinistro, também se aceitam. “Kali” estabelece Ptolemea como um projecto que já não é só de potencial, de uma exemplar liberdade estilística e a garantir que vamos querer saber mais sobre o que anda Priscila a fazer.


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