Novos Românticos – Criptopátria

por Christopher Monteiro
Ano 2026
Estilos Pós-punk, New wave, Electrónica
Editora Altafonte Portugal
Destaques Mesa Posta, Festival da Canção 2027, Criptopátria
Novos Românticos – Criptopátria
7.5/10

Pode existir um ponto para lá do ultraje, que é o da saturação. E é possível que muitos já tenham atingido esse ponto no que toca a conteúdo político. Ironicamente essa saturação também pode, por vezes, procurar uma voz. E, se faz falta um tom diferente à indignação, uma outra forma de encarar a preocupação e desespero com o estado do mundo, então aí entram os Novos Românticos, anfitriões e guias da distopia que parece ser esta nossa “Criptopátria”.

Dão voz e musicam muitas frustrações. Até podem mesmo ser a voz da saturação, tal é a forma que toca nas feridas mas também desconstrói muitas questões. Encontrarão aqui ideias, mas não afiliações. E essa mesma frustração revela-se, por exemplo, em “Mesa Posta”. Mais é posto em causa nos seguintes temas, poupados no tento na língua. É intervenção, mas uma intervenção moderna, adequada ao turbulento presente (como sugere um título tão simples como “Portugal 2020”). E terão a mesma apreciação por muito deste actual clima que têm pelo Festival da Canção, podemos assumir.

Para além da mensagem, normalmente transmitida através de uma voz monótona, narrada, por vezes meio balbuciada, também há a parte musical. A que nos prende e chama de volta, a parte que seduz, que tanto vai buscar ao movimento “New Romantic” britânico. A partir do nome deles, ninguém diria. Muito pós-punk, envolto em electrónica que torna canções como a já aqui citada “Mesa Posta” viciantes, muito new wave a tornar o ultraje dançável e muita música fumarenta de outros tempos (“Comunidade Europeia” vem direitinha dos anos 80). É muito do que torna “Criptopátria” mais apelativo ainda. Para quem está farto de meninos ricos com muitos seguidores a ditar supostas normas e a comandar a tal “Criptopátria” distópica da qual estas batidas nos tentam tirar. E até para quem está farto de conteúdo político em todo o lado e procura um escape. De forma muito paradoxal, também este disco o é.


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