Ah é assim? Nem se avisa, nem nada? Uma pessoa meia descontraída, tanto quanto seja possível, abre lá uma das malditas redes sociais para uma vista de olhos rápida, para recordar a que horas é a bola, e leva assim com uma notícia de que há um álbum dos Neurosis, que já pode ser ouvido lá nos sítios onde a malta agora ouve tudo? Um gajo tem que se preparar, já fazia dez anos desde uma carga de lenha destas. E cá estamos. Disco novo de Neurosis no primeiro trimestre de 2026 é mesmo uma realidade.

An Undying Love for a Burning World” parece um perfeito título para uma banda destas. O positivismo no meio do caos, uma florzinha a nascer numa “wasteland”, é a imagem que nos sugere. Os Neurosis, sempre muito negros, até conseguem personificar um pouco isso. E o título também se adequa aos próprios. Não só porque um “burning world” é sempre melhor se os Neurosis estiverem nele, mas também porque o “undying love” por eles está aqui, não propriamente a ser posto à prova, ou a ter algum tipo de apreensão, mas sem dúvida que fica muito curioso. É que temos que ver como cumpriram a tarefa de preencher os “big shoes” deixados pelo já infame Scott Kelly. Mas isto não foi feito com um casting aberto a desconhecidos. E até se procurassem pelas centenas de discípulos seus, das bandas influenciadas por eles que existem ao pontapé, não haveria dificuldade em encontrar algum vocalista/guitarrista talentoso para o fazer. Foram por uma opção que fazia tanto sentido: Aaron Turner dos Isis, com quem têm aquela fraternidade de influência em toda uma cena. E isto nunca soou tão Neurosis, afinal.

Aquela introdução até sugere que vem aí algum disco de hardcore em bruto, mas os Neurosis não precisaram de recuar assim tanto. Os riffs de “Mirror Deep” e “First Red Rays” podem soar a muitos, mas isso é porque muitos andam agora a reproduzi-los: isto é malta que os começou a fazer nos 90s, a fazer sludge atmosférico antes de lhe chamarmos isso. A harmonia entre Turner e Scott Von Till mantém isto no território familiar, mas do melhor possível, tudo enquanto se constrói aquele ambiente que encantou tantos no “Through Silver in Blood”, com aventuras musicais que até parecem contidas, tal é a facilidade com que encaixam, como o uso de sintetizadores para experimentar outros ambientes (Space rock em “Seething and Scattered”? Power electronics na “Last Light”?). Experimentalismos que soam perfeitamente lógicos, comparáveis ao “Fires Within Fires”. Já nos sentimos em casa, soa tudo certo com estes Neurosis, a soar tão iguais a si próprios, no seu estado mais negro e criativo. Nem nos deixa irmos a correr fazer a piadola de agora serem os NeurIsis. Não sentimos isso. Sentimos muita coisa, mas não isso.


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