Se realmente o sucesso e reconhecimento em demasia não for algo que cause muita sarna, e não se tiverem já filtrado alguns leitores de nariz mais encolhido, logo ao ver o nome Moonspell, podemos realmente reconhecer que há muitos louvores a dar à banda, para além de serem muito bons e muito reconhecidos lá fora, e isso tudo. Já têm um corpo de trabalho extenso que nos permita ver o quão consistente é a sua discografia, em qualidade. E sempre com uma variedade assinalável.
Como muitos têm os maus hábitos de valorizar coisas inicialmente mais mal-amadas quando já passou um tempo, parece que os adeptos de (muito bons) discos que não costumam estar no topo do ranking, como o “Sin / Pecado” ou o “The Butterfly Effect”, já se podem manifestar mais alto. E reconhecemos que os Moonspell até tratam muito bem a parte agressiva da sua música (não é sacrilégio dizer que o “Wolfheart” é um dos grandes discos de todo o black metal europeu), mas são uma banda gótica que trata muito bem o seu lado mais suave. E aí sim estamos a usar o termo com muito cuidado, não há cá molezas em “Far from God”, da mesma forma que não houve no soturno, envolvente e até revestido de um erotismo vampiresco “Omega White”, adenda subvalorizada do “Alpha Noir”, e com o qual dá para fazer algumas comparações.
“Far from God” mexe-se mais por essa vertente, vai ao “Irreligious” buscar a atmosfera e pede conselhos aos seus dois sucessores já aqui enumerados. Em muito também faz lembrar a mistura e balanço de facetas e pesos que se sentia na trifecta “The Antidote”, “Memorial” e “Night Eternal” (já podemos chamá-la clássica?), com tanta adoração aos actos do rock gótico clássico como a Peter Steele na voz de Fernando Ribeiro. “Far from God” é gótico sem ser depressivo, mesmo quando vai por um caminho mais Katatonia como em “Our Freedom to Fall”; é romântico sem ser lamechas; é controlado no peso, sabendo quando soltar os lobos enraivecidos, como em “Biblical” ou na mesma “Our Freedom to Fall”; e também consegue ser triunfante, sem necessitar de ser tão progressivo como o antecessor “Hermitage”, mesmo que se sinta o seu cunho na conclusiva “Reconquista”. “Far from God” é um disco que, mesmo seguindo uma vertente coesa, mostra-se mais variado a cada audição. A enriquecer uma discografia, já ela tão variada por si. Já andamos há décadas a tirar-lhes o chapéu, cá dentro e lá fora, mas cá continuamos e não é só pelo reconhecimento da longevidade.