“Fragments of a Modern Soul” lança Mary Ann como uma voz que quereremos ouvir mais no futuro. Fá-lo aceitando e acolhendo um desafio: o da categorização ou rotulação. A procura de uma cena onde se possa encaixar. Na verdade, livra a cantora nortenha de amarras estilísticas e escreve as canções apenas a pensar nelas próprias, nas emoções que despertarão e como funcionarão. E é bem capaz de resolver o problema da melhor forma: adequa-se a vários públicos.
É assente num pop rock mais experimental, ou num rock alternativo grandioso, que olha com a mesma facilidade para um estádio no seu refrão, como para um pequeno espaço intimista para outras melodias mais imersivas, e que tem o mesmo medo de deixar algumas partes adocicar-se um pouco mais como de “metalizar” ligeiramente outras partes. Mais catártico, por exemplo, numa “Wake Up Call”, mas mais subtilmente dançável em “Welcome”. Apenas alguns exemplos da versatilidade de temas que se sente ao longo de todo o curto disco, tudo bem ligado, para que algumas pitadinhas de Evanescence aqui, de Amy Winehouse ali, ou dos mais melancólicos Depeche Mode por aí algures, bem submersas no resto, não soem a referências assim tão estapafúrdias (que ainda podem bem ser).
Mas o “MVP” disto tudo é mesmo a voz de Mary Ann, poderosíssima e a carregar, tanto rock como soul, com a mesma força. E bem empregue em canções bem escritas. E pensadas, com um conceito que questiona os excessos e perigos da modernidade, algo que cai com tanta naturalidade em dias em que a coisa só parece estar cada vez mais descomedida. Que vá inspirando umas obras como esta, aparentemente tão simples mas devidamente ambiciosa e cheia de potencial para nos deixar curiosos quanto ao que Mary Ann ainda possa vir a fazer, à medida que só amadurece ainda mais.

