Parece ser uma necessidade aquela chatice de arranjarmos alguém de fora para fazer um paralelismo. Para termos “os nossos estes” ou “os nossos aqueles”, muitas das vezes a ser tão redutores para com as nossas bandas de identidade definida. Mas se é mesmo assim tão preciso, os Heavenwood são os nossos Paradise Lost. Mas isso não é para localizar, porque assumimos que esteja a lição obrigatória sobre esta nossa entidade gótica bem estudada… É mesmo porque já dá para fazer comparações na sua dimensão.
Vão três décadas desde que um “Diva” veio definir como a música pesada mais gótica se viria a mover por cá. E também já lá vai uma desde a primeira parte de “The Tarot of the Bohemians” que mostrava total falta de qualquer tipo de ferrugem na máquina. E agora que temos a segunda parte, não há qualquer sinal de que comece a falhar agora. Vem completar o anterior “Tarot” e talvez venha mais completo ainda. Há peso, há melancolia, há muita melodia, e há o tratamento dos elementos que os tornaram grandes e que souberam sempre manter, devidamente retratados e actualizados, para permanecerem frescos a cada novo disco. Que não costumavam aparecer a cada dez anos, antes.
A entrada, “Death”, é aquele conforto, a familiaridade, o ponto onde ficámos anteriormente. O que tem sido revisitado, também, através das reedições dos clássicos. Segue-se muito bom riff, a conviver com muita melodia envolvente. As oscilações de velocidades são as esperadas de uma banda que beba muito ao doom, e são capazes de puxar de um convite para o “sing along” com um refrão tão pegajoso como o de “The Moon”, e de levar o seu gótico para outros lados mais limpos e acessíveis (se tiver mesmo que ser outra vez, então pensem nos Paradise Lost do “In Requiem”) como em “The Fool”, para realçar alguns destaques num alinhamento tão sólido e sem fillers. Numa altura que também pode ser vista como ponto de viragem, com muita resiliência e superação a inspirar Ricardo Dias dos Santos, peça nuclear dos Heavenwood, esta segunda parte de “The Tarot of the Bohemians” acaba por soar catártica, como a fechar um capítulo que precisava mesmo da sua conclusão. Atingir e transmitir isso através, principalmente, de composições ambiciosas é o que justifica três décadas de sucesso. Que não tenhamos que esperar mais uma para um próximo capítulo.