Uma das surpresas do ano ficar a cargo de um Chili Pepper hiperactivo não devia estar no “bingo card” de muitos. Músico de respeito, atenção. Mas ninguém saberia o que esperar de Flea. Quer sejam fãs de todo o repertório dos Red Hot Chili Peppers, se não sabem bem onde situar o “Stadium Arcadium” na linha da sua relevância, se acham que aquilo até é promissor até o Kiedis abrir a boca, ou se não os suportam de maneira nenhuma, nada disso entrará em conta para a apreciação de “Honora”, primeiro disco longa-duração que Flea assina em nome próprio.

Para “Honora”, Flea recorre à sua velha paixão, o seu primeiro instrumento: a trompete. Para um arraial de funk frenético? Não. É mesmo jazz, assim puro, sem excentricidades extra. “A Plea” até pode entrar com um baixo para nos manter familiarizados, e Flea a declamar uma mensagem de paz e amor meio em spoken word, mas não segue por caminhos experimentais. Nem com a participação de convidados improváveis que, na verdade, são bastante prováveis, como Thom Yorke (ex-companheiro de banda nos Atom for Peace) ou Nick Cave (este com uma recriação de um clássico country como “Wichita Lineman”, que é um mimo), e até de suspeitos do costume (Chad Smith na introdução e uns toques de John Frusciante aqui e ali, só não cabe mesmo o outro de maneira nenhuma). Entre as próprias composições e recriações de outros actos reconhecidos como Funkadelic ou Frank Ocean, “Honora” até é um disco bastante coeso e uma obra estranhamente relaxante, para um músico eléctrico como Flea. Como quem vestiu uma indumentária mais formal (ou uma indumentária, vá), fez cara séria, confessou que até tem mais ambições e emoções dentro dele e fez algo de outra categoria.

É o álbum a solo caprichoso de um músico veterano? É o álbum de covers feito com os amigos? A obra pretensiosa a querer mostrar que faz coisas diferentes? Um álbum de jazz que serve tão bem como outro para servir de background para aquele que não consegue apreciar o jazz com a mesma minúcia do fanático nato? Ou uma demonstração de versatilidade de um génio? Se calhar até pode ser isso tudo, sem ser bem alguma dessas coisas. “Honora” é introspectivo, é agradável, é virtuoso e também surpreendente. Tudo um pouco do que é Flea. Sem as outras maluquices que tão erroneamente insistimos em associar-lhe primeiro.


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