“Splat!” pode ser o som de um autêntico cachaço em qualquer um de nós que se queixa de cansaço quando tem que subir alguns degraus mais do que o costume. Aí é altura de recordar se também é cansativo escrever estas resenhas (e é!) e quantas delas já foram feitas em relação aos Deep Purple nos últimos anos. É que já estamos a falar de octogenários, entre outros que já quase lá estão! (à excepção do guitarrista Simon McBride, o sangue jovem recentemente injectado). E editam discos com esta facilidade. Vamos ser mais precisos: editam grandes discos com esta facilidade.
Somos sempre cautelosos quando as bandas lendárias de há umas boas décadas atrás lançam material novo. Compreensivos, mas cautelosos, sabemos que não vão estar aí obras-primas e aceitamos que são trabalhos feitos para eles próprios, uma auto-revisita, algo para o qual já há muito conquistaram o direito de fazer. Mas os Deep Purple têm-nos mal habituados com uma assiduidade discográfica impressionante nos últimos anos e com a capacidade de fazer discos de rock sem espinhas e ainda cheios de pica. Há total consciência, da banda e dos ouvintes, de que não é agora que vão inovar muito, ou sequer escrever as suas melhores canções. Já fizeram isso antes quando estavam lá a fazer parte da transição do rock para uma outra coisa nova, mais assustadora mas fascinante, que era o heavy metal; e já escreveram daqueles riffs inesquecíveis, que conhecemos desde a nascença e que são sempre a primeira coisa que se aprende ao pegar numa guitarra. Mas atentaram a esse mesmo legado: estavam entre toda a aquela juventude inovadora, de culto ao riff, que esteve na génese do heavy metal. E que tal se “Splat!” for um disco assim mais pesadito que os antecessores directos?
Claro que continua a marca de Deep Purple do século XXI, claro que ainda é o teclado de Don Airey o “MVP” disto tudo, e claro que ainda soam aos velhos a divertir-se à fartazana com “rock ‘n’ roll” que consideram que já não se faça hoje em dia, bem regadinhos de blues. Mas aproveita-se bem a juventude de McBride para alguns dos riffs mais intensos em algum tempo, até é um bem rápido e provocador que abre em “Arrogant Boy” e é o que orienta e obriga os velhotes a andar mais depressa numa “Guilt Trippin’”. Tem mais diferenças a apontar além disso? Não propriamente. É tão brilhante como os clássicos? Nunca teria que ser. Ian Gillan soa àquele Ian Gillian de outros tempos? É claro que não, mas também não soa ao comum homem de 80 anos que se encontre por aí. E queremos muito ouvir tipos de 80 anos a cantar letras como da “Jessica’s Bra” ou “Third Call”? Provavelmente não, mas é fácil de perdoar. Os velhotes fizeram mesmo mais um grande disco de rock divertidíssimo. Ultimamente, andávamos a perguntar “como”. Como conseguem? Agora já estamos no “porquê”. Porque é que ainda o fazem? Já podiam estar sossegados a desfrutar de uma boa reforma. Ou então é assim mesmo que o fazem.