Também um underground tem alcance. Como se fossem umas catacumbas que se estendem pelo mundo inteiro. Também temos boa representação lá por baixo, com os Black Cilice a ter já muito desse terreno subterrâneo conquistado e a chegar a este “Votive Fire” com muita expectativa vinda de todo o lado.
Só ficariam desapontados se não levassem com uma rajada de vento de black metal no seu estado mais cru e lo-fi. Nem dá tempo para criar alguma expectativa errada, entra logo a matar. Os tremolos que iniciam o arrasto, levam-no até ao fim, sem paragens. É pelo meio disso que temos que arranjar forma de espreitar para o fundo do poço onde estão umas quantas almas penadas a berrar, tal é a forma como a berraria ainda se arrasta. Não é fácil a procura de melodias no meio desta névoa toda, ou até por baixo do lodo. Claro que a prioridade é a atmosfera e até o desconforto. Esse tão agradável desconforto que só o black metal desta categoria consegue explicar, e nem sequer a qualquer um.
Não há uma alteração de disposição nos quatro temas de “Votive Fire” e a pouca (mas existente) diferença entre temas reforça a ideia de que é uma experiência na qual ficar submerso na sua total duração, como se fosse um só tema, um só ritual, uma só caminhada pelo núcleo da Terra dentro, em direcção às mais profundas camadas infernais. Mais do que conseguir ser um mau ambiente muito agradável (fãs do raw black metal entenderão esse oxímoro e muitos outros), tornou-se mesmo uma assombração e uma justificação do estatuto de Black Cilice em todo este panorama. É um disco exemplar sobre como fazer esta arte do black metal no seu estado mais cru, mas também atmosférico. Um disco para o qual se deve olhar, mesmo que se esteja a olhar para o negrume e se veja absolutamente nada. Podemos precisar ali das velinhas da capa.