Una Mujer Fantástica

por Edite Queiroz

O desempenho de Daniela Vega é a grande pérola de "Una Mujer Fantástica", um retrato directo da vivência da transexualidade que dispensa artifícios para transmitir a dimensão de tal batalha pessoal.

Título Português Uma Mulher Fantástica
Ano 2017
Realizador Sebastián Lelio
Elenco Daniela Vega, Francisco Reyes, Luis Gnecco
País Chile, Alemanha, Espanha, E.U.A.
Duração 104min
Género Drama
Una Mujer Fantástica
7.5/10

O chileno Sebastián Lelio, que em 2013 nos trouxe Gloria, regressa com mais um filme íntimo que mergulha na complexidade psicológica e sexual feminina. Em Una Mujer Fantástica conhecemos a história de Marina Vidal (Daniela Vega), uma mulher transexual, que depois de um curto período numa relação feliz é surpreendida pela morte do companheiro (Orlando, Francisco Reyes), um homem mais velho que abandonou, por ela, uma vida familiar convencional. Para além das questões da morte e da dor, o filme debruça-se sobretudo na reacção hostil da família de Orlando, que não reconhece Marina enquanto sua legítima companheira e por isso lhe nega o direito à despedida, à tristeza e ao luto.

A relevância política da personagem e do argumento são incontornáveis, sobretudo quando a escolha da protagonista recai sobre a primeira e única actriz transgénero do Chile.

O desempenho de Daniela Vega é a grande pérola do filme, um retrato directo da vivência da transexualidade que dispensa artifícios para transmitir a dimensão de tal batalha pessoal (que imediatamente acreditamos saltar da realidade para a tela). Quando o idílio amoroso se desfaz, Marina é deixada à mercê do preconceito e do desdém (que não lhe seriam alheios), mas também da injustiça e desconfiança do hospital, da polícia e da família de Orlando – que, entendendo a sua diferença como algo aberrante, se apressa em atribuir-lhe várias outras características pouco lisonjeiras: Mariana, a destruidora de lares; Marina, a aproveitadora, Marina a devassa, Marina, a doente. O insistente tratamento pelo seu nome masculino – Daniel – é utilizado como um punhal, negação definitiva e pública do seu direito à condição de mulher. Mas em lugar de se rebelar com veemência contra a humilhação de que é alvo, Marina responde com frieza e presença de espírito. A forma como a componente indizível da história é transmitida (o sofrimento de alguém que, para além de marginalizado, não pode sequer chorar a morte de quem ama) é de enorme pungência. Marina não se permite intimidar com o desprezo. É impelida a não mostrar fragilidade, a gerir a sua raiva interior e a não ripostar contra o que não pode alterar, sem que isso abale a determinação para fazer valer os seus direitos básicos. A relevância política da personagem e do argumento são incontornáveis, sobretudo quando a escolha da protagonista recai sobre a primeira e única actriz transgénero do Chile, também ela uma mulher que tem derrubado barreiras e tabus, impondo-se na indústria como uma profissional de respeito. Imediatamente aclamada pela crítica internacional, Vega é uma das actrizes do momento.

Vencedor do Urso de Prata do Festival de Berlim (argumento) e candidato ao Óscar de melhor filme estrangeiro, Una Mujer Fantástica é sobretudo um poderoso trabalho de análise psicológica e uma celebração da resiliência e da diferença. Sem dúvida que a abordagem comporta um aspecto de crítica e denúncia ao comportamento social perante a transexualidade, expondo uma situação que poderia acontecer em (quase) qualquer parte do mundo e revelando a ignorância e impreparação para lidar com formas diferentes de amar e de sentir. Por outro lado, Lelio demarca-se de uma postura panfletária, declinando o facililismo de apelar à curiosidade voyeurista do público (por exemplo, recusando revelar se a personagem realizou ou não uma operação de mudança de sexo) e resistindo à tentação de apresentar a personagem central como uma mulher frágil ou traumatizada. O filme de Lelio é, como poucos, uma ferramenta para reflectir comportamentos e atitudes, que não toma partidos mas antes sublinha a importância da tolerância e da aceitação mútua num mundo diverso. A sua maior proeza: a apresentação ao grande público de Daniela Vega, tão fantástica como a mulher do título, que aqui emprega bem mais do que o seu corpo, voz e talento, abrindo assim mais uma porta para tantas outras Marinas.


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