The Shape of Water

por Bruno Ricardo

The shape of water é um recado e um poema, filmado como se fosse uma criança que descobre que os monstros são reais e que os piores não são os deformados, mas aqueles iguais a nós.

Título Português A forma da água
Ano 2017
Realizador Guillermo del Toro
Elenco Sally Hawkins, Michael Shannon, Octavia Spencer, Richard Jenkins, Michael Sthulbarg
País EUA
Duração 123 minutosmin
Género Fantástico
The Shape of Water
9/10

Desde que Tim Burton vagou a cadeira, Guillermo del Toro tem sobrado como o cineasta dos monstruosidades e criaturas fantásticas. O seu amor pelo disforme deu ao mundo cinema imagens icónicas como o Homem Pálido, com olhos cravados na palma das mãos, ou a transformação de um personagem de banda desenhada na realidade tridimensional de Ron Perlman com Hellboy. No entanto, esse fascínio sempre foi encarado como cinema menor pela maior parte da crítica, o que torna então surpreendente a maneira como o seu mais recente The shape of water se tem afirmado nesta temporada de prémios. Bem sei que este é mais um ano para sermos políticos nos Óscares, mas sendo apenas cinéfilos, rejubilemos com esta celebração do cinema de género nos maiores prémios do cinema norte-americano; se juntarmos Get Out, um filme de terror, isto é um sinal dos tempos.

E não é como se esta obra não se afirme politicamente: passada no início da década de 60, junta personagens postos de lado pela sua cor de pele, preferência sexual, deficiência física ou simplesmente por serem mulheres; e o que os une numa mesma missão é um monstro. O que torna o filme mais subtil é o artifício da fábula. Antes, há muitos séculos, fábulas e contos serviam para nos contar as verdades mais íntimas da vivência humana, os pecados e os defeitos de cada um e Del Toro usa o artifício mais antigo de todos para nos confrontar com um mundo actual que parece não distar assim tanto do desta década. A forma é mesmo a da água, que é o condutor universal por excelência, o elemento que nos liga a todos. No centro, Elisa Esposito trabalha numa instalação militar limpando o chão. Não consegue falar, mas ouve e dentro de si vive um mundo vibrante e cheio de cor e vivo, que gira em torno dela mesmo. É quando conhece uma espécie de tritão aprisionado e humilhado por gente do exército norte-americano que parte da sua vida faz sentido. O filme depende por completo de comprarmos este conceito: um ser humano e um monstro envolvem-se e apaixonam-se e têm contacto físico (a sexualidade é extremamente importante no filme e é uma afirmação de individualidade: nos primeiros dez minutos, isso fica logo bastante claro) e é-nos pedido, como pessoas liberais que somos, que aceitemos. Se não o fizermos, o filme não resulta. É uma proposta arrojada e Del Toro vende-a com a sensibilidade que só tem quem ama estas criaturas de verdade: filma o estranho monstro com uma graciosidade incrível que nunca esconde a sua selvajaria, com a atenção dada à emoção. É preciso entender, para efeitos da nota dada, que este é o meu tipo de filme – visualmente requintado, assumidamente fora da realidade e sem medo de sentir, ainda que não nos atire isso à cara. Sou um romântico não assumido, que posso fazer?

Mas é a actriz Sally Hawkins, uma Elisa que nos atira quase sempre uns ares de Amélie, que tudo decide com uma performance que é não apenas emocional, como divertida e um pilar de realidade na fantasia de Del Toro. Os melhores filmes do mexicano são aqueles que cruzam História e Fábula e embora reconheçamos esta fantasia americana que nos é apresentada, com Cadillacs, cafés com tartes e noites de família em redor da televisão, os olhos de Elisa parecem sempre filtrar esse mundo com as cores do realismo mágico: gotas de chuva que dançam à janela, um sono debaixo de água e mesmo uma sequência de fantasia que embora force um pouco a mão, é uma delícia. É ela o nosso bilhete para este mundo fantástico. História real e importante cruza-se com naturalidade com este tom de faz de conta e até mesmo o vilão (um Michael Shannon a ser odioso, preso naquilo que ele, e toda uma geração, acredita que é a verdadeira América: no fundo, o principal vilão do filme é essa concepção de que só pode haver uma maneira de atingir a felicidade que nos é imposta), mau como tudo, tem motivos compreensíveis. As sub-narrativas funcionam todas para a principal e adensam-na de forma fluída. O guião não é brilhante, mas é coeso e toma o seu tempo para atingir a emoção máxima num final digno das histórias que ouvíamos quando éramos crianças.

O projecto é todo de Del Toro, claro. A paleta é de cobalto e verde água, as luzes vêm sempre de cima e o filme abre com um dos planos do anos que por si só estabelece o tom do filme, introduz-nos tudo o que precisamos de saber sobre Elisa e estabelece o realizador como um dos grandes visualistas a trabalhar no cinema moderno. As inspirações são óbvias, mas a mais estranha, mas directa, o filme A bela e o monstro, de Jean Cocteau. A criatura de The shape of water deve-lhe muito e apegando-se de um certo saudosismo europeu (patente na excelente banda sonora de Alexandre Desplat) e no encantamento dos inícios de cinema. Todo o filme vive aliás fascinado pela sétima arte e o realizador defende claramente o escapismo para confrontar a realidade: Elisa vive por cima de um cinema e o seu vizinho, um artista frustrado com a vida, por ser velho e porque a sociedade lhe nega a liberdade de ser gay, refugia-se nas imagens em movimento. The shape of water é um recado e um poema, filmado por del Toro como se fosse uma criança crescida que descobre que os monstros são reais e os piores não são os deformados, mas aqueles iguais a nós.

O filme casa bem com o conto de fadas e obra-prima que é El laberinto del fauno e como este pinta a realidade fantástica como a alternativa que insiste em misturar-se com o peso do mundo e com o peso da intolerância e da violência. O filme é sobre compreensão e o que acontede quando esta não se alcança, sobre quem não vê o quadro maior, sobre a possibilidade de uma pessoa se afirmar sem medo como indivíduo. É também um teste para empedrenidos, que deverão verificar o seu coração caso não sintam nada no decorrer do filme. Incrível e monstruoso também é o facto de em três anos terem nascido no México três homens que viriam a mudariam todo o cinema mexicano e a trazer novas cores à imagem em movimento. Dois deles, Iñarritu e Cuáron, já foram premiados. Aquele que sobra, o mago dos mundos que são nossos sem neles vivermos, aquele que deu ao mundo os monstros que Doug Jones tão bem interpreta como acontece neste filme, está a ser celebrado este ano – e é um admirável mundo novo, tão belo, perigoso e vibrante quando aquele que Guillermo del Toro constrói em The shape of water.


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