The Rip estreia na Netflix como um thriller policial consciente da sua escala e, afinal de contas, fiel às regras que decide seguir. Ambientado em Miami, acompanha uma unidade policial de narcóticos que, após o assassinato de uma das agentes, Jackie, descobre milhões de dólares escondidos num stash house abandonado. Ao centrar-se na corrupção e na desconfiança dentro do próprio grupo, Joe Carnahan conduz a narrativa com um sentido claro de propósito, evitando os floreados desnecessários e a soberba que, tantas vezes, compromete projetos afins. Há um respeito evidente pela lógica do mundo em que as personagens habitam e pela experiência do espectador, o que, num contexto de consumo cada vez mais fragmentado, já constitui mérito.
A história, inspirada em factos ocorridos em 2016, em Miami Lakes, é retratada com sobriedade técnica. O enquadramento privilegia a tensão entre os elementos da equipa e permite que o conflito se desenvolva num espaço maioritariamente contido. Quando o cenário se altera e as reviravoltas surgem, a respetiva previsibilidade favorece e facilita o envolvimento do espectador, por muito que essa escolha acabe por tolher margem para surpresas mais inesperadas.
Dito isto, o maior ativo de The Rip reside mesmo na dinâmica entre Matt Damon e Ben Affleck, protagonistas cuja própria produtora esteve envolvida no projeto. A cumplicidade construída ao longo de décadas fora do ecrã é integrada com inteligência dramática e funciona como elemento agregador num argumento que, de outra forma, poderia revelar mais fragilidades. Affleck (Detetive Sargento Byrne) segue um registo mais expansivo, por vezes próximo do excesso, enquanto Damon (Tenente Dumars) adota uma presença mais contida e confere o equilíbrio necessário. Essa complementaridade revela uma noção apurada de tempo e de espaço partilhados, própria de uma dupla que, sem dúvida, marcou a viragem do século no cinema contemporâneo.
À sua volta, o elenco secundário outros reúne nomes de peso, como Steven Yeun, Teyana Taylor e Kyle Chandler. Todos oferecem interpretações competentes, ainda que a escrita raramente lhes conceda momentos que transcendam a função narrativa. Essa circunstância torna-se mais perceptível no último terço do filme, quando o ritmo acelera e o enredo converge para o desfecho que sempre prometeu. Ou seja, a mudança de cadência reduz a subtileza que até então marcava ponto, aproximando-se de um denominador de entretenimento deliberado.
Reforço, por isso, a honestidade e a estratégia imprimidas no projeto. The Rip alinha com os parâmetros do género com maturidade e define como objetivo entreter, algo que consegue na maior parte do tempo. Numa época em que a simplificação dos enredos é frequentemente justificada pelo crescente défice de atenção do público, o filme não reivindica o estatuto de antídoto, mas também não cede à tentação de condescender quem vê.

