Há uma razão para The Polar Express continuar a ser, para mim, mais do que um hábito de Dezembro. O filme não reduz o Natal a um estado de alma pré-fabricado, tratando-o, ao invés disso, como um problema íntimo, quase filosófico, que nasce quando a crença perde o cariz automático. O que está em causa é a nossa disponibilidade para reconhecer o maravilhoso, sobretudo quando a ingenuidade da infância já não nos serve de prova. E, nesse sentido, a palavra que o filme repete, de forma explícita e ainda mais frequente do que “Natal”, é “acreditar”.

Na sua adaptação do livro de Chris Van Allsburg, Robert Zemeckis ampliou-lhe o escopo num percurso onde cada episódio parece testar uma competência interior. O comboio aparece como instituição e como rito: há regras, hierarquias e até pequenas arbitrariedades que lembram, com desconforto produtivo, que o encantamento contemporâneo convive com logística. Ao aproveitar-se dessa ambiguidade sistemática, o realizador fá-lo sem cinismo, preferindo encenar a questão do que sobra quando a festa já está montada e o âmago, mesmo assim, hesita.

É aqui que o motivo da crença ganha forma concreta. O bilhete da viagem é um objeto banal e, precisamente por isso, tão afiado como metáfora. Passa de mão em mão, perde-se, reaparece, é carimbado, revisto e disputado. Acreditar deixa de ser um fogo espontâneo e passa a figurar algo que exige confirmação contínua. Este reflexo de burocracia é uma das grandes forças da história, porque descreve o modo como muitas pessoas atravessam o fantástico, entre a vontade de o sentir e o esquecimento de como se faz.

Mesmo a opção estética, tantas vezes discutida, serve este mesmo propósito. A tecnologia de captura de movimentos 3D procurou aproximar os corpos e os gestos de uma presença humana, num registo que pode parecer inquietante, mas encaixa com a dramaturgia da dúvida. A imagem vive num limiar, tal como o protagonista, dividido entre a memória e o pedido de explicação.

Quando o Polo Norte se revela, os cenários confirmam o que é sugerido desde o início: a magia é gigantesca, mas não necessariamente íntima. É pública, coordenada e quase industrial. No entanto, no centro da coreografia narrada surge o Pai Natal, uma figura de escala transcendente, filmada como presença luminosa que domina o espaço e clama pela atenção de todos. O filme engrandece-o além da pretensão de invulnerabilidade e aposta numa abordagem simbólica subtil. A fé pode vacilar em nós, mas o mito permanece, inteiro, à espera de ser reconhecido.


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