The Light Between Oceans

por Jose Santiago

Podemos entender o filme como um ensaio sobre o isolamento e como este pode toldar o raciocínio das pessoas mais bem intencionadas.

Título Português A Luz Entre Oceanos
Ano 2016
Realizador Derek Cianfrance
Elenco Alicia Vikander, Michael Fassbender, Rachel Weisz
País Reino Unido, Nova Zelandia, EUA
Duração 133min
Género Drama, Romance
The Light Between Oceans
6.5/10

Não conseguindo ultrapassar os horrores das trincheiras, Tom Sherbourne decide que o melhor a fazer é isolar-se da sociedade e aceitar trabalho como faroleiro numa remota região da Austrália. Contra todas as probabilidades, durante uma das poucas visitas à aldeia mais próxima, encontra Isabel Graysmark por quem imediatamente se apaixona e pouco tempo depois acaba por casar. Tudo parece correr bem. Vivem isolados na companhia de quem mais querem, a única coisa que acrescentariam a esta vida seria uma criança e Isabel chega mesmo a engravidar, mas não consegue levar a termo. Depois de dois abortos espontâneos, a esperança começa a escassear, até que, do nada, avistam um bote com o cadáver de um homem e uma criança de poucos meses, ainda viva. Relutantemente, Tom acede ao pedido de Isabel e não denunciam o caso, escondendo o cadáver e assumindo a criança como sua. A trama adensa-se quando conhecem a mãe biológica do bebé e o segredo corre o risco de ser descoberto.

the_light_between_oceans_01

O grande mérito deste filme reside na construção do casal, que é absolutamente necessária para conseguirmos perceber as motivações por detrás dos actos. Seria muito fácil alienar o público com uma decisão reprovável se não fossemos expostos ao crescendo pessoal de Tom e Isabel, se não testemunhássemos o nascer do amor e o posterior desencanto do quotidiano, onde os sonhos não se traduzem em realidade. Curiosamente, antes de se dar o acontecimento que catalisa o cerne da história, não sentimos qualquer tipo de ansiedade e estamos apenas concentrados no momento. Sentimos o isolamento de Tom naquele farol, compreendemos aquela paixão fulminante e somos brindados com uma série de postais em movimento que nos hipnotizam e envolvem no cenário. A chegada da criança levanta uma série de questões que vão para além do thriller criminal. A decisão não é consensual e não afecta só os envolvidos, há uma mãe atormentada pela perda do marido e da filha, toda a comunidade está envolvida com as personagens e quanto mais o tempo passa, mais todos este factores vão pesando aos olhos da lei e do mundo. Sem revelar absolutamente nada acerca do desfecho e sem ter lido o livro que deu origem ao filme, não consigo deixar de olhar para o final com alguma amargura pela falta de coragem e a necessidade de embrulhar tudo com um laçarote. O que acontece no final tem muito pouco a ver com aquilo que ficámos a conhecer das personagens e há uma mudança completa de comportamentos que parece forçada por algum poder exterior.

Ao ver os dois actores principais senti um claro desequilíbrio inicial entre Alicia Vikander e Michael Fassbender, ele parecia estar apenas existir e ela transpirava vida. À medida que o tempo passa, percebemos que há muito mais a descobrir na personagem de Tom e que Fassbender estava a interpretar na perfeição alguém com uma bagagem emocional carregadíssima, com segredos que nunca são revelados mas que sabemos ter. É uma personagem extremamente complexa e dá imenso gozo tentar perceber quem é aquela pessoa, não através de monólogos sobre o passado mas das decisões e comportamentos. Alicia Vikander representa a juventude inadulterada pela vida e conservada em contexto familiar, um bom contraponto para Tom e talvez, por isso, mais inconsequente e presa ao momento. Há uma entrega completa ao papel e funciona de uma maneira muito orgânica. O mesmo não se pode dizer de Rachel Weisz, uma mulher que perdeu toda a família não deveria ser tão contida. Sentimos que o trauma existe mas que não está a ser transposto da maneira que o texto exige, o que é uma pena, porque é uma das melhores actrizes a trabalhar neste momento e acaba por sair daqui como um veículo para os acontecimentos se desenrolarem.

the-light-between-oceans-02

Estava à espera de um romance cliché e de uma dúvida interessante, mas acabei por encontrar um filme com personagens brilhantemente texturadas e uma situação com implicações maiores e nada simplistas. Podemos entender o filme como um ensaio sobre o isolamento e como este pode toldar o raciocínio das pessoas mais bem intencionadas, mas é também uma história sobre os limites do amor e da felicidade pessoal quando justaposta à felicidade de outros. O último acto do filme deixa algo a desejar, não está de acordo com o tom geral da trama e acaba por manchar tudo o que está para trás.


Partilha com os teus amigos