Os Olhos da Ásia

por Ines Cisneiros

Um riquíssimo documentário histórico sobre o diálogo intercultural luso-nipónico, e as marcas do cruzamento na história de ambos os países.

Título Português Os Olhos da Ásia
Ano 1996
Realizador João Mário Grilo
Elenco José Abreu, Geraldine Chaplin, António Cordeiro
País Portugal
Duração 86min
Género Drama histórico
Os Olhos da Ásia
8/10

Entre 1986 e 2002 existiu em Portugal uma Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses que tinha por principal função preparar, organizar, e coordenar celebrações relativas aos descobrimentos portugueses do século XV – entre os quais se incluíu, ainda que acessoriamente – por posterior -, a chegada dos portugueses a Nagasaki, no Japão, em 1543 e, connosco, a evangelização.

Não é por acaso que o filme de João Mário Grilo, produzido por Paulo Branco e estreado em 1996, no Festival de Locarno e revisto, vinte anos depois, no passado dia 6 de Fevereiro de 2017 no Espaço Nimas, inicia com o mar e a imagem de quatro jovens japoneses na praia, tanto ponto de partida como porto de chegada. Os Olhos da Ásia são Julião Nakaura, Miguel Chijiwa, Martinho Hara e Mâncio Ito, todos membros da Embaixada Tensho, que no início do filmes vemos em novos, estudantes jesuítas, entusiasmados com o facto de serem os primeiros japoneses enviados ao mundo, à Europa e ao Papa.

Simultaneamente janelas da alma nipónica e testemunhos/as do Cristianismo, só nos voltam a ser mostrados diversos anos mais tarde já no momento da perseguição Cristã, cada um deles desempenhando uma função diferente, no mundo, perante o Cristianismo, como no filme, que acabará por se focar essencialmente em Miguel e Julião, capturados em diferentes momentos pelos representantes locais do shogun (titulo militar atribuído pelo imperador àqueles que actuavam como ditadores feudais, exercendo uma espécie de administração local durante o Período Endo, durante o qual foi banido o cristianismo) e colocados perante o dilema da fé da apostásia, cada respondendo de forma diferente.

A história destes Príncipes de Nagasaki é contada em paralelo com o regresso de Jane Powell (personagem interpretada por Geraldine Chaplin – sim, um dos 11 filhos de Charlie Chaplin), reenviada pela Europa a Nagasaki, onde passou a infância durante o período de reconstrução da cidade pós bomba atómica. Sim, é a mesma Nagasaki que nos é mostrada em períodos tão diferentes da sua história por João Mário Grilo, revelando (como havia de referir na conversa que sucedeu esta sessão) “o fio que atravessa a história”, a presença do passado no presente e os seus reflexos no futuro. A perenidade das instituições e da fé inabalável pela história, opressão ou bomba-atómica (Incessantemente balança o berço / que une o Hoje e o Amanhã. Walt Whitman).

Mais do que uma prequela ao Silêncio de Shusako Endo, ou uma história sobre fé e martírio, Os Olhos da Ásia são um riquíssimo documentário histórico sobre o diálogo intercultural luso-nipónico, e as marcas do cruzamento na história de ambos os países.


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