O Agente Secreto

por Pedro Rolino

O Agente Secreto leva Kleber Mendonça Filho de volta a Recife para filmar um dos períodos mais sombrios da história recente do Brasil.

Título Português O Agente Secreto
Ano 2025
Realizador Kleber Mendonça Filho
Elenco Rodrigo Santoro, Wagner Moura, Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Thomás Aquino, Isabél Zuaa, Udo Kier
País Brasil
Duração 160min
Género Drama, Thriller, Suspense
O Agente Secreto
8/10

O Agente Secreto leva Kleber Mendonça Filho de volta a Recife para filmar um dos períodos mais sombrios da história recente do Brasil. O ponto de partida é simples, quase seco: em 1977, em plena ditadura militar, Marcelo regressa à cidade natal para ver o filho, que vive com os avós maternos, enquanto procura uma saída possível do país.

Mendonça acompanha este gesto com a mesma atenção à memória e ao espaço que atravessa O Som ao Redor, Aquarius e Bacurau, agora ao serviço de um thriller político assumido. A narrativa organiza-se em capítulos, alternando intimidade familiar com uma tensão que parece acumular-se no corpo e imagens que surgem como assombrações: o cadáver deixado junto à bomba de gasolina, o membro amputado guardado na câmara frigorífica. Nada é decorativo. São vestígios de um país em que a violência do Estado se tornou rotina e os mortos sem nome são empurrados para fora de campo.

O filme não tenta abarcar a ditadura como um manual. Escolhe um ângulo e insiste nele. Um académico entra em conflito com um membro do regime e torna-se alvo de perseguição e de ameaças de morte. O enredo avança num equilíbrio atento entre o suspense e crónica de paranóia política. O realizador trabalha com o vocabulário dos thrillers dos anos 70 e com o imaginário do cinema de género, com ecos de Jaws de Spielberg, mas desvia-se dessas referências para comentar o Brasil de ontem e de hoje, aproximando as práticas ditatoriais dos absurdos com que o país aprendeu a conviver.

Wagner Moura é o centro silencioso desta engrenagem. Marcelo aparece como um homem exausto, hipervigilante, que se move sempre ligeiramente encolhido, como se o corpo antecipasse o perigo antes da mente. A forma como sente o filho à distância, como entra num espaço público e, num só olhar, reconhece saídas e pontos de ameaça, dá ao filme um nervo humano que dispensa explicações. A tensão instala-se tanto nas fugas como na aparência de normalidade, e é aí que o cenário ganha robustez.

À volta do protagonista, compõe-se um pequeno mosaico de figuras que adensam o contexto sem o reduzir a uma tese ilustrada. O avô projecionista cruza a trama com as salas de cinema de Recife e a cinefilia que o realizador já explorara em Portraits of Ghosts. A casa de abrigo onde convivem perseguidos políticos e refugiados angolanos faz ressoar as ligações entre ditaduras e colonialismo. E a cidade, filmada no turbilhão do Carnaval, surge constantemente atravessada por gestos de vigilância, como se a folia fosse apenas a camada visível de uma ameaça que nunca se desliga.

O Agente Secreto é uma obra com memória e ferida históricas, na qual existe uma precisão quase coreográfica na forma como a câmara se aproxima dos corpos, na circulação interna de cada plano e no modo como o som ambiente e a música vão sustendo o espaço. Mesmo quando a violência se torna gráfica, mantém-se uma estranheza elegante, em que o “brutal” e o “belo” existem dentro do mesmo enquadramento.

O que resta não é só o mecanismo da intriga nem o gesto de denúncia, mas a sensação de que uma atmosfera de medo prolongado foi convertida num cinema atento aos detalhes e ao desejo elementar de uma vida sem sobressaltos. O título promete espionagem, porém o conteúdo desarranja-o: o “agente secreto” retrata apenas mais um cidadão forçado à clandestinidade, sem engrandecimento nem aventura, num tempo em que a linha entre a insurgência e o exercício de liberdades era gravemente ténue.


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