Jay Kelly, o novo filme de Noah Baumbach, parte de uma ideia desgastada e perde-se na tentativa de equilibrar introspeção e charme. O realizador, que tantas vezes soube converter labirintos emocionais em matéria de cinema, como sucedeu em Marriage Story e The Meyerowitz Stories, parece aqui contentar-se com o verniz de uma obra agradável à superfície, mas que se esgota depressa.

A história acompanha Jay Kelly, um astro de Hollywood envelhecido, interpretado por George Clooney com a elegância de quem conhece demasiado bem o próprio mito. O enredo usa-o como figura de meta-referência, mas falta-lhe tempo e densidade para esmiuçar o estatuto. Mesmo servindo de ponte entre a ficção e o público, a sua presença raramente se transforma num corpo vivo dentro da narrativa.

Por seu turno, Adam Sandler, no papel de Ron, o agente-pai-amigo, é um dos poucos elementos que se distingue no meio de tantas personagens e situações constrangedoras, mesmo que nem ele próprio escape a alguns desses momentos. O seu desempenho é menos expansivo do que a expectativa popular costuma augurar e é precisamente aí que acerta. Ao funcionar como eixo de contenção, Sandler consegue, pelo menos, dar outra cadência às cenas e evitar que o embaraço se confunda, por completo, com substância, devolvendo alguma honestidade à trama.

Também as analepses lhe tentam conferir textura, mas são manuseadas com uma previsibilidade que denuncia o esforço. Em vez de a montagem conceder ao presente uma ambiguidade produtiva, explica-o em demasia e acaba reduzida a uma sequência de vinhetas esteticamente aprazíveis.

O retrato de Hollywood e da sua fauna, central ao contexto, é outro dos pontos fracos. O olhar de Baumbach, habitualmente arguto nas relações humanas, torna-se aqui uma caricatura moralmente inofensiva. As ambições, vaidades e feridas do sistema são abordadas como se o cineasta as tivesse acabado de descobrir, e a autoconsciência que exibe acaba por reproduzir a mesma superficialidade que pretende satirizar.

Visualmente, os quadros surgem envoltos numa paleta cálida, que reforça o tom de comédia dramática sofisticada. Tudo é bonito o suficiente para disfarçar a ausência de risco, o humor é leve, muitas vezes meramente funcional, e o sentimentalismo substitui o que deveria ser desconfortável. Há encanto, sem dúvida, mas pouco a dizer.

O filme termina a pedir empatia pelo protagonista, sem nunca a implementar verdadeiramente. Ao desenvolver a figura de Jay Kelly como um ícone em retrospecção, carecem-lhe os traços concretos: a dor é de formulário, as falhas genéricas e o perdão alcançado porque a história assim o dita. Quando Ron segura a mão de Jay, diante de uma compilação de imagens que quebra a quarta parede e expõe o percurso real de George Clooney, o gesto comove mais por associação cultural ao que Clooney representa do que pelo peso interno do argumento.


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