BlacKkKlansman

por Bruno Ricardo

Apesar da brutidade, 'BlackKklansman' triunfa em grande estilo, arrancando risos, provocando com alguma suplesse, devolvendo até Spike Lee à bela forma.

Título Português O infiltrado
Ano 2018
Realizador Spike Lee
Elenco John David Washington, Adam Driver, Topher Grace, Laura Harrier, Jasper Paakkonen, Ryan Eggold, Robert John Burke
País EUA
Duração 135min
Género Comédia, Terror
BlacKkKlansman
8/10

Se há um ano me dissessem que estaria numa sala de cinema a ver um filme de Spike Lee, recomendava a essa pessoa um colete de forças e um pacote de 100 dias no Sobral Cid; mas lá fui eu ver BlackKklansman, o filme de que se fala nestes tempos de ideologia em megafone. De certa forma, Spike Lee é o realizador perfeito para a era em que vivemos – nunca ninguém pode acusá-lo de silêncio cúmplice, mas o mesmo se pode dizer para a sua falta de  capacidade em analisar assuntos complexos. Lee tem uma carreira brutalmente desequilibrada, misturando obras fundamentais como Do the right thing (1989) ou Malcolm X (1992), sempre radicados num espírito de revolta da comunidade negra (e é bom relembrar que ambos os filmes são de um período temporal turbulento, na passagem da década de 80 e 90, onde a voz negra no cinema era muito mais reduzida do que hoje, e isto é dizer bastante) até equívocos, ainda que bem intencionados como Chi-rac (2o15) ou Bamboozled (2000). Ainda assim, quando se predispõe a isso, Lee é capaz de cruzar a linha e perceber como vive o resto da sociedade. The 25th hour (2002) continua a ser, para mim, o seu melhor filme; Inside man (2006) é um impecável filme heist; e até Summer of Sam (1999), com as suas falhas, tem os seus momentos. É importante ir referindo estes filmes por um motivo: num momento da sua carreira em que Lee se vinha a destacar nos seus documentários (quase todos muito bons), o realizador lança uma obra que acaba por ser uma espécie de best-of dos seus melhores tiques e obsessões.

Esta incrível história verdadeira, de um polícia negro que se fez passar por um membro do KKK quase parece uma das suas criações. O melhor e o pior que se pode dizer sobre o filme é que a subtileza continua a não ser um ponto em que Lee capriche: aceite-se ou não, vamos estar duas horas e tal numa sala a levarmos na cara com pregação, referências directíssimas à actualidade, “abrolhos” relativos ao racismo e no geral, a noção de que algo vai de errado no mundo. Isto é irritante a espaços, mas percebe-se de imediato nos primeiros minutos que o autor é um homem irritado com o mundo e que isso se transmutou para o ecrã. Não desgosto disso – prefiro paixão mal direccionada do que comodismo; e o filme, que quer ser várias coisas mas funciona muito melhor como comédia satírica, é incrivelmente divertido a espaços, se bem que para tal se sacrifique o seu aspecto dramático. Ocasionalmente, Lee tenta dar lições de História e, bem, são as regras do jogo, o que interessa não é apenas a narrativa, mas acima de tudo o grande quadro do lugar dos negros no grande conto da História americana. Há monólogos explicando directamente episódios pouco conhecidos de perseguição racial ditos por figuras importantes na comunidade negra, o que é normal nos seus filmes e se bem que didácticos, são momentos que enfraquecem o filme num todo. A narrativa de um personagem, um branco infiltrado no KKK, pode tornar-se bastante empática, principalmente a partir de uma cena onde a questão da sua identidade judaica é bastante focada, mas estas considerações apenas superficialmente interessam a Lee.

Na sua mira está a América de Trump, o chamado “pós-racismo” e a ideia é arrasar e não deixar nada de pé, usando a grande associação de cavaleiros da supremacia branca como o émulo perfeito dos cantos mais recônditos e aparentemente bem educados do Partido Republicano. Aí, apesar da brutidade, BlackKklansman triunfa em grande estilo, arrancando risos, provocando com alguma suplesse, devolvendo até Lee à bela forma. Dá-me pena vê-lo sem grande interesse por personagens, mas é uma queixa sem grande interesse ou importância, porque o foco do filme é queimar terra e vir recolher cinzas no final. Talvez porque esta é a sua grande oportunidade de falar ao mainstream cinematográfico depois de alguns anos no exílio (aparte o remake de Oldboy, algo que é melhor nem mencionar), Spike Lee aborda tudo desde o papel do negro na sua própria narrativa, a noção da força colectiva da comunidade negra e existem até citações subversivas a uma das obras fundadoras do cinema norte-americano, The birth of a nation, um filme com o qual é sempre problemático de lidar – profundamente racista por um lado, absolutamente fundador da técnica  narrativa cinematográfica moderna por outro – num momento em concreto. O final mostra que Lee não vem para brincar ou para examinar matizes: depois do riso, a entrada da realidade com uma picareta, a lembrança de que este filme de época é até mais fruta da época. Em tempos de notícias falsas, de desvalorização da realidade e dos factos, talvez a solução não esteja na análise e no argumento. Talvez, de certa forma, a violência seja a resposta de uma maneira figurada; e BlackKklansman, pelo menos, não se poupa nos biqueiros e caneladas.


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