Alien: Covenant

por Natália Costa

Alien: Covenant começa onde Prometheus havia terminado, dando seguimento ao enigma da origem do diabólico Alien.

Título Português Alien: Covenant
Ano 2017
Realizador Ridley Scott
Elenco Michael Fassbender, Guy Pearce, Katherine Waterston, Billy Crudup, Danny McBride
País Reino Unido, E.U.A., Austrália, Nova Zelândia, Canadá
Duração 122min
Género Ficção científica, terror, thriller
Alien: Covenant
9/10

Alien: Covenant foi exibido na sexta-feira dia 11 de Agosto de 2017 no Porto na iniciativa Cinema Fora do Sítio que tem como objectivo aliar duas coisas fantásticas: o Verão e o cinema, apresentando filmes da actualidade ao ar livre em espaços da cidade. O palco escolhido para a exibição deste foi os Jardins do Palácio de Cristal, cenário perfeito para acolher filmes de grande impacto visual, por entre as sombras das árvores e a gruta.

Há uns meses falava eu com a minha colega do Arte-Factos Isabel Leirós no Monitor, o programa de Rádio no qual é Diva, sobre bandas-sonoras e surgiu aquela questão de ouro que se coloca sempre aos cinéfilos: qual o género de eleição? A Isabel achava – até pela própria escolha da selecção musical desse dia – que seriam os épicos. Respondi que todos os géneros são especiais para mim, pois também não conseguiria viver sem comédias. No entanto, analisando a questão mais a fundo, se eu tivesse de escolher apenas um, aquele que me é mais querido é a ficção científica. Há dois grandes motivos para este amor: a capacidade que o cinema tem de transcender as barreiras da nossa realidade, levando-nos numa viagem por cenários e situações e a grandeza filosófica a que o género ficção científica nos permite, quando bem explorado. Aliás, não é raro serem apresentados em livros ou filmes aquilo que à data é considerado ficção científica, vindo isso mais tarde a revelar-se uma realidade (ocorre-me de imediato o nome de Jules Verne e, consequentemente, Georges Meliès). É, sobretudo essa grandeza de imaginação que torna a meu ver, a ficção científica tão especial. Ridley Scott, o realizador deste Alien: Covenant, é – aliás – o criador dum dos meus filmes de eleição e que me ocorre quer quando se fala dos títulos da nossa vida, quer quando se menciona os maiores da história do cinema de ficção científica: Blade Runner, cuja a aguardada continuação deixou todos os fãs tão expectantes como temerosos. Dentro dos próximos meses já descobriremos se o que aí vem irá dar ou não continuidade à lenda.

Alien: Covenant, realizado por Ridley Scott, é a sequela da prequela de Alien, Prometheus. Alien foi lançado no já ido ano de 1979 e revolucionou o mundo da ficção científica e também o do terror. Confesso que já não sou a fã do género terror como era nos meus também idos tempos de adolescência, mas posso dizer que de todos os que vi – e nessa época foram todos os que existiam até à data – Alien é o que melhor envelheceu. Toda a estética do filme foi um marco visual, o facto de ser com Sigourney Weaver, uma das mais talentosas actrizes do cinema, e todo aquele pânico gerado pelo ser vindo do espaço a que Scott deu vida tornaram-no um clássico. Seguiram-se Aliens de James Cameron em 1986, onde se nota o gosto pela grandiosidade que tanto caracteriza Cameron sobretudo na luta final, Alien 3 de David Fincher de 1992 onde a claustrofobia – algo elementar nos filmes de Fincher – se consegue sentir e Alien Resurrection de Jean-Pierre Jeunet de 1997, um filme mais visual e quase a roçar o gore (nota para a excitante sequência na água). Em 2012 Ridley Scott lança Prometheus, onde promete contar como tudo aconteceu e, como o Alien terá nascido. Apesar dessa premissa, no final ainda fica em aberto como é que Alien, conforme o conhecemos, se terá desenvolvido.

Alien: Covenant começa onde Prometheus havia terminado, dando seguimento ao enigma da origem do diabólico Alien. Este é, de longe, o melhor de toda a saga a nível de densidade emocional do ponto de vista filosófico e das eternas questões: “De onde vimos e porquê?” O filme abre com a criação de David, o andróide (a quem eu tanto gosto de chamar replicant), cujo nome não é escolhido ao acaso e representa no seu âmago a (sede de) perfeição. Esta é, aliás, uma das sequências mais belas do filme em que David se depara com o seu próprio criador (curta, mas marcante aparição de Guy Pearce) e, consequentemente, com os dilemas com que o seu próprio criador se confronta. Segue-se a missão da nave Covenant que, por uma série de acasos e decisões, vai parar exatamente ao local onde tudo se irá desenvolver. O crescendo da intensidade emocional inicia-se pouco depois da aterragem, numa cena extremamente bem realizada, onde o som tem um papel extremamente relevante para nos acelerar o coração e nos fazer sentir o pânico daquelas personagens que têm a particularidade de estar todas ligadas para além duma missão científica, tornando o filme ainda mais intenso (sugestão: ver o prólogo do filme de nome Alien: Covenant Prologue: Last Supper. Scott sempre foi mestre em conjungar som com imagens e em conseguir o crescendo emotivo nos seus espectadores como comprovam filmes como Blade Runner, Thelma & Louise (dois dos meus all time favourites), Gladiator, Alien ou The Counsellor. E sempre exerceu outras funções para além da de realizador ao longo da sua carreira, nomeadamente como produtor.

Após o primeiro susto, seguem-se aqueles momentos calmos antes da tempestade, onde a sequência da flauta – e uma pausa aqui pois a flauta não é escolhida por acaso – é do mais belo que já se viu, quer pela beleza cinematográfica da cena, quer pela densidade filosófica desse momento. E há que dizer uma palavra para Michael Fassbender que se firma como um dos melhores actores da actualidade, conforme tenho vindo a dizer de há uns anos para cá. E, por último, a tensão – tão humana – de confronto, onde criação, propósito, loucura, sanidade, sobrevivência se fundem. Aqueles sentimentos tão humanos que tornaram filmes como Artificial Intelligence, X Machina ou I Robot tão marcantes e o grande motivo pelo qual tornam este tão distinto.

Uma última nota para aplaudir a fantástica escolha de Richard Wagner e, em particular, da ária A Chegada dos Deuses a Valhalla de Das Rheingold (O Ouro do Reno) que, na sua génese, resume todo o filme, tal como as alusões ao poema Ozymandias de Percy Bysshe Shelley que era casado com Mary Shelley, cujo Frankenstein é mencionado em Prometheus.

Alien: Covenant é extremamente bem realizado e o melhor filme de toda a saga, pois – para além da Ripley, da tensão, da luta pela sobrevivência, de todo o festival sangrento que tanto nos deslumbrou e deslumbra – vai mais longe do que os seus irmãos e põe o dedo na verdadeira ferida, tornando-se por isso um clássico imediato que há-de atravessar gerações e que deslumbrou quem teve o prazer de o ver ou rever nessa sexta-feira no Porto no cenário perfeito para uma noite de Verão.


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