Há discos que parecem inevitáveis. The Afterlife Sessions, o novo álbum do cantor e compositor canadiano Allen Dobb, é um deles. Fiel às suas origens, marcadas pela música acústica, pelo folk e pela tradição Americana, Dobb apresenta onze faixas construídas a partir do essencial: instrumentos de corda, instinto e uma vida inteira de experiências para contar. Um regresso às fundações, gravado em quatro dias nos Afterlife Studios, em Vancouver, ao lado de três músicos com quem a cumplicidade foi crescendo de forma natural. O resultado é um álbum íntimo e ao mesmo tempo vasto, que soa a algo que sempre esteve prestes a acontecer.
#1 At the Bridge
Acho que a mensagem por detrás desta canção faz dela uma excelente abertura do álbum. “At the Bridge” é baseada na história de James Teit, um antropólogo autodidata que chegou à Colúmbia Britânica na década de 1880. Passou muito tempo com os povos indígenas do interior, aprendeu muitas das suas línguas e encontrou as pessoas onde elas estavam. O título foi sugerido pelo livro sobre a vida de James Teit escrito por Wendy Wickwire. At the Bridge é a metáfora perfeita para a experiência partilhada e a aceitação. Algo de que precisamos muito neste momento.
#2 Ballad of Willie Holmes
O Willie Holmes vivia mesmo ao lado da nossa quinta. A canção não é sobre esse Willie Holmes, mas o nome soava bem e era útil para sustentar a história. Havia qualquer coisa na sua proximidade connosco, nas relações dentro de uma família e na importância de aproveitar o caminho da vida, que acabou por entrar na canção. O Willie Holmes da canção reconhece a beleza e o amor na sua vida, mas acaba por passar tempo demais na estrada a trabalhar, sendo incapaz de cumprir a promessa de expressar esse amor à sua família.
#3 Lone Tree of Your Heart
Vivo numa zona florestal linda, e todos os dias caminho pela floresta, subo as colinas e vou até aos meus locais preferidos de onde vejo o céu e os vales lá em baixo. A canção nasceu de um sentimento de saudade: o desejo de estar na estrada, de fazer mais digressões, mas também de apreciar estar em casa e encontrar contentamento numa vida simples. Na canção, essa ideia é contada através da história de um jovem que regressa para tomar conta da quinta da família depois de ter saído pelo mundo em busca de aventura.
#4 Fly Like Cowboys
Quando era mais novo, participava em rodeios e, como cowboy, andava muitas vezes pela estrada numa pickup com um reboque cheio de cavalos. Adorava aquela sensação de liberdade na estrada e pensar em ganhar algum dinheiro no próximo rodeio. São esses sentimentos que inspiraram “Fly Like Cowboys.”
#5 Forty-Five Years of Gathering
Regressei à quinta há uns bons anos e fui visitar o meu tio-avô e a minha tia-avó. Andavam a limpar o quintal, e a minha tia disse: “acumula-se mesmo muita coisa depois de 45 anos de recolha. Encontrámos as pedras de curling do teu avô no celeiro, queres ficar com elas?” As pedras de curling não entraram nesta canção, mas “Forty-Five Years of Gathering” acabou por se transformar na história de um velho cowboy que olha para trás, para a sua juventude, o seu amor e “os cavalos que escolheu.”
#6 Black and White 1912
Gosto muito de olhar para fotografias históricas a preto e branco, especialmente as do interior da Colúmbia Britânica. Ocorreu-me que a nossa visão dessa época era distorcida pelo próprio medium. As pessoas e o ambiente parecem austeros por falta de cor, mas na realidade tudo era colorido. Na canção, adoptei o ponto de vista de um peão que viajava pelo interior no início do século XX, precisamente quando os automóveis começavam a substituir os cavalos e as carroças. A sua experiência fica registada numa fotografia a preto e branco tirada em 1912.
#7 Rocks to Pick
Lembro-me de escrever esta canção, saiu toda de uma vez, com uma clareza enorme. Provavelmente porque vem de experiência própria: andei mesmo a apanhar pedras na quinta. Tivemos também anos difíceis, por isso a ideia de ter uma colheita muito boa era apenas a esperança de que algo melhor estava para vir. Está em forma de blues, e por isso tem referências familiares que me parecem perfeitas para o tema.
#8 Bluebird
Há uns anos, numa primavera, ia a caminho de um rancho ao longo do rio Fraser. Ainda havia neve no cimo do planalto, mas no vale estava quente e soalheiro. Os pássaros azuis voavam reflectindo a luz da manhã nas asas, de poste em poste ao longo da vedação. Era um espectáculo tão bonito que tive de o capturar numa canção.
#9 Daylight is Burnin'
“Daylight is Burnin’” era uma expressão que ouvíamos muito quando crescíamos na quinta. Dizia-se quando o trabalho não avançava suficientemente depressa, ou quando não nos estávamos a aplicar o suficiente. O conceito de tempo na canção é ainda mais amplo e sublinha a importância de saborear os momentos especiais da vida.
#10 Border Nocturne
“Border Nocturne” já queria sair como canção há algum tempo, mas eu não sabia bem qual deveria ser o cenário. Vivi no Arizona durante uns anos e, no fim, foi essa paisagem que entrou na canção.
#11 At the Bridge (Instrumental Reprise)
Estávamos a trabalhar nas canções de The Afterlife Sessions quando Dan Fremlin, o mandolinista, começou a improvisar sobre “At the Bridge.” Encontrou uma melodia nova na progressão de acordes do verso e sugeriu que mantivéssemos uma estrutura simples de A-B. Transformou-se num instrumental belíssimo e numa forma maravilhosa de fechar o álbum.