“O Melhor e o Pior da Música Biológica” é o título do quarto disco dos nacionais Unsafe Space Garden e consolida uma fase em que a banda assume, sem timidez, a língua portuguesa como matéria central.
Disponível a partir de hoje, dia 4 de março, o disco inaugura um novo capítulo no percurso da banda, mas mantém-nos em direção ao objetivo com o qual sempre se comprometeram: criar uma plataforma comunitária capaz de desfazer dificuldades de comunicação e igualar a experiência humana a um lugar compreensível e saudável. Até porque “se calhar, viemos todos do mesmo sítio”, como anunciam a certa altura no álbum.
#1 Tás Aqui?
O nome da música é a pergunta que serve de ponto de partida para a nossa intenção ao longo do disco. Tentamos começar com um lembrete de que a vida está a acontecer neste preciso momento, de que estamos vivos, muito porque tendencialmente como espécie vivemos, ou a reviver o que já foi nas nossas cabeças ou a preparar e a massacrar o que aí vem, então o mote é este berro amigável de que está a ser agora, e que é para ser vivido intensamente. Para nós é muito importante este apelo constante a que haja entusiasmo e espanto e empolgação, disposição essa que cada vez mais parece difícil de alcançar no mundo moderno, mas que procuramos constantemente encontrar formas de musicar e cantar.
#2 FKNKU
Foi o primeiro single deste disco e sentimos que entra como uma espécie de bulldozer chateado que precisa de ajustar contas com alguma coisa: neste caso, com o ciclo muito humano da auto-sabotagem. Esta música teve cerca de 8 versões de demo, deu uma luta desgraçada e ganhou propulsores de ataque quando se gravaram as guitarras, graças ao Rafael Silva e ao José Vale. Tem também curiosas gravações de foley, desde facas a roçarem-se uma na outra ou água a ser cuspida, bebida e esparrinhada pelo Filipe Louro, as quais adicionaram ao carácter teatral de se esventrar essa parte de nós que insiste em ser inimiga de si mesma.
#3 Sítios
A “Sítios” já foi outra música chamada “São Tantas As Coisas Que Eu Quero Dizer”. Também teve a sua quota parte de versões, mas foi mais amiga e resolveu-se mais rápido. A guitarra inicial foi um “trinta e um” de se gravar porque nenhum de nós é particularmente versado na linguagem do funk, que era necessária para dar o ritmo certo à música. Depois de muito estudar e ouvir como se faz (acudidos pela fabulosa Ella Feingold e pelo Prince), aprendemos humildemente que nem tudo o que parece fácil é e lá conseguimos chegar a um sítio que lhe oferece o groove certo – mas continuamos longe de fazer jus à linguagem. É uma música que quer combater a distância, que apela ao lugar comum de se ser uma pessoa, com tudo o que isso engloba, e que nos une mais do que o que nos separam as bandeiras que aprendemos desde cedo a identificarmo-nos com. Ou seja, “se calhar viemos todos do mesmo sítio!”.
#4 Ser Humano
Depois da empreitada de dissolução geográfica da “Sítios”, na “Ser Humano” tentamos dissolver a confusão que se gerou em torno de se ser humano. Contamos histórias em sociedade, e para nós mesmos, que serviam para nos manter, mas que em algum momento se tornam prejudiciais, sendo preciso desapegar delas e relembrar o que é ser-se humano, para se voltar a ser humano. Nesta música convidamos o João Ricardo Pateiro para um relato do desenvolvimento da espécie humana desde os primórdios da vida no Planeta, e escusado será dizer que o Pateiro arrasou. As gravações com ele foram absolutamente imbatíveis e estratosféricas e uma lição acerca de colocação de voz, boa disposição, e como é ser um humano fenomenal, o que tornou a música ainda mais especial para nós. No fundo a intenção era mesmo a de expressar que a espécie humana é capaz do pior e do melhor, e que podemos sempre voltar a intenção e a atenção para o melhor (e um ligeiro aceno ao nome do disco, porque inevitavelmente todas as músicas vão eventualmente ter a esta premissa).
#5 Mais uma Voltinha
Há músicas que aparecem sem esforço nenhum, só escorregam por quem cria e de repente já têm vida própria e a “Mais uma Voltinha” foi muito assim. Fala sobre começar de novo, e sobre os imensos começar de novo que surgem ao longo da vida, sobre encarar dificuldades com graciosidade e esperança. Com esta música, tentamos abraçar o mundo todo, porque aquilo que mais une a nossa espécie é a inevitabilidade de eventualmente passarmos por coisas terríveis que têm o potencial de trazer outras maravilhosas. Nesta música trabalhamos outra vez com a turma de música da Universidade Sénior de Moreira de Cónegos, que foi tal como esperado, uma experiência maravilhosa. Entregaram-se completamente à música para cantar connosco os infinitos mais uma vez que a vida oferece, e para nós imortaliza a beleza do trabalho em conjunto, e desta mesma coisa que unifica tanto: a nossa condição frágil perante a existência, e a possibilidade de fazer algo de belo enquanto cá estamos.
#6 Possível Dissolução Mental das Paredes
Ao refletir tanto sobre estas questões todas fomos impelidos a falar a partir da perspetiva de músicos, que adoram ser músicos, mas cujos desafios e constantes dificuldades em sobreviver financeiramente às vezes despertam maleitas difíceis de contornar. A “Possível Dissolução Mental das Paredes” parte de um desabafo com o senhor doutor acerca da sensação de isolamento e solidão, como se não se conseguisse chegar a ninguém porque estamos cheios de paredes à volta, e chega à conclusão de que a forma de abolir as paredes que nos separam a todos uns dos outros, músicos ou não, é começar por estender o braço, e procurar em nós mesmos a possibilidade de revolucionar a nossa forma de entender o outro. É uma música divertida, com a participação normal do nosso otimismo tremendo que acredita que se salva o mundo com compaixão.
#7 Já não há Pachorra
Esta música é possivelmente a mais antiga de todas as deste disco, sendo a mais próxima da sua versão original de 2019 quando Unsafe Space Garden ainda era só uma série de ideias e sonhos. É uma canção de revolta com a tendência constante para nos sentirmos sós hoje em dia, é um momento de relembrar que às vezes se perde mais tempo a pensar onde se está melhor do que a apreciar o quão bem se está aqui.
#8 Ode à Vida
Diria que esta música é a mais celebrada e amada por nós neste disco. É muito forte para nós cantá-la. Viver em 2026 é confuso e estranho e muitas vezes assustador. O mundo parece cada vez mais ter começado a ganhar apetite pelo caos e destruição, e não estamos alheios a tais ansiedades. E por isso mesmo é tão importante para nós celebrar aquilo que nos resta de uma batalha a favor da vida, e da alegria, e de todas as coisas que realmente devem ser celebradas. Quanto mais aparentamos estar indefesos perante todas as coisas terríveis que estão a acontecer, mais importante nos parece relembrar de que podemos mesmo viver melhor. Esta música é o nosso eurodance hit para quando é preciso relembrar de que é mesmo viver que se quer.
#9 A Vida não é uma Merda
Se calhar podemos ser para sempre acusados de um incrivelmente irritante otimismo idealista, mas acreditamos mesmo que a vida não é uma merda. As pessoas podem torná-la uma merda, e os líderes mundiais parecem adorar fazer dela uma merda, mas a nossa luta biológica mantém-se, e nesta viagem pelo Melhor e Pior da Música Biológica, fechamos com a epopeia biológica com a qual sonhamos cantar um dia com milhares de pessoas a plenos pulmões, com momentos para abanar a anca e o capacete, porque a Vida não é uma Merda. Mesmo.
Temos memórias muito mágicas das semanas que passamos fechados a fazer esta música, e só esperamos que ela traga tanta alegria para quem a ouvir, como nos trouxe a nós quando a fizemos e quando a tocamos.
Concertos de apresentação
9 de Abril – B.Leza, Lisboa
10 de Abril – Plano B, Porto

