Nunca Mates o Mandarim são João Amorim (voz), João Cabral Campello (bateria) e Manuel Dinis (guitarra), três portuenses, por entre o poético e o mundano, com tempo de sobra para queimar. Com uma forte vertente lírica, o próprio nome do conjunto é retirado d’O Mandarim de Eça de Queiroz – uma das muitas referências que a banda interpela de forma direta e desinibida.

Depois do EP de estreia, “Parou P’ra Ver” (2023), que conferiu algum reconhecimento ao trio portuense, e de  “Nunca Mates o Mandarim Cantam os Clássicos” (2024), uma coleção de arranjos que remexe na purpurina do bailarico português, editaram recentemente o seu primeiro longa duração, “Bola de Bilhar” (2026), um álbum que dá conta de uma banda amadurecida, sem perder a veia indie que caracteriza a sua sonoridade.

#1 12 Badaladas

Embora não seja uma balada propriamente dita, é uma das músicas mais românticas do nosso álbum. Uma música que alude ao sapato que não serve e à hora decisiva marcada pelo relógio. Foi uma das músicas que mais demorou a chegar ao seu ponto final – desde a sua energia na demo até às últimas alterações que foram feitas no estúdio semanas antes do lançamento. A nossa primeira canção a ultrapassar os 6 minutos – algo que, de certa forma, caracteriza o nosso processo de escrita para este álbum – escolhida, no entanto, para o abrir devido ao seu teor e leveza. (MD)

#2 Histórias

A 2ª faixa do álbum é uma composição que foge aos padrões da banda até à data – é uma balada onde a guitarra acústica lidera. Este tema foca-se num imaginário inspirado pelo cinema Noir, dependente de uma dança entre os diferentes elementos da canção: teclados com contra-melodias, guitarras elétricas etéreas e um baixo construído e pensado até ao mais pequeno detalhe. (JC)

#3 Desvio na Mealhada

“Desvio”, como lhe chamamos, é uma música com bastantes referências, entre outras, à portugalidade, o que quer que ela signifique. Desde a interpolação inicial – “sei de uma bela portuguesa” – às reflexões críticas mascaradas de apreço pela precariedade do jovem português. Tem talvez uma bridge demasiado longa e refrões a mais para o attention span desse mesmo jovem, mas a vida tem desses desafios. (JA)

#4 Dominó

Uma música upbeat que pega na lengalenga infantil e num coro de crianças para tecer uma história em torno de traição e violência. Um facto curioso é que foi composta e escrita no campismo do festival Paredes de Coura, começando por esse mesmo motif que só aparece a chegar ao final da música. Outro facto curioso é que tem uma boa dose de inspiração nas cartas amorosas que avançam a trama d’O Primo Bazílio de Eça de Queiroz, autor a quem também roubámos o nome da banda. (JA)

#5 As Cartas

O interlúdio do disco e 2º interlúdio da banda – o 1º também foi roubado a Eça, no nosso EP de estreia. Esta é uma composição que, através das suas guitarras banhadas em efeitos, nos transporta para o lado B do álbum. Foi criada a partir da necessidade de explorar novas sonoridades, acordes e formas de explorar o instrumento que mais move a banda: a guitarra elétrica. O título é uma alusão às duas canções que lhe servem de sanduíche. (JC)

#6 Dama de Copas

A 2ª balada assumida do disco e provavelmente também da banda, através da qual conseguimos mostrar o amadurecimento da nossa sonoridade. Não foi acidental a sua escolha enquanto single, pois deixa transparecer o teor do álbum e explora novas configurações de composição e construção musicais: samples de bateria; uma guitarra elétrica repetitiva mas pensada de forma cirúrgica com a simplicidade sempre em mente; uma letra minimalista; um refrão que não chega bem a sê-lo. O tema serve de ode à nossa cidade natal do Porto, algo que não é novo no nosso repertório, e termina num apogeu que rapidamente se desmorona para dar lugar ao tema seguinte. (JC)

#7 Três Noites

Uma outra aventura pelo imaginário Noir com uma forte dose de crítica social, é uma música com um tom mais soturno e cru. Esta mudança de sonoridade é um destaque que marca uma exploração criativa diferente dos nossos devaneios iniciais. As camadas de guitarras elétricas e a letra sombria, o groove de bateria e o solo pojante criam o ambiente peculiar da Três Noites. Uma ótima música para ouvir enquanto se vê cair os cortinados de pingas de chuva pela luz quente de um candeeiro de rua da cidade. (MD)

 

#8 Bola de Bilhar

A música favorita dos três. Assim que a acabámos de materializar, sabíamos que daria o nome ao álbum e foi das mais fáceis de acabar depois de levada a estúdio. Ela própria tem uma dinâmica de jogo – repetição, rotina, posse, novidade, clímax -, pegando nessa temática para desvendar outras cartadas que a vida lança. O eco ad nauseam “vem comigo ao fim dos tempos”, a constatação cruel que “os homens são vilões” contraposta por achar “que nunca soube ser homem” e a conclusão final que “não sou nada – não sou nada de novo” são três das passagens de que mais me orgulho de ter escrito. (JA)

#9 Coimbra B

A Coimbra B tem raiz no elo entre Porto e Lisboa. As deslocações entre estes dois locais, as experiências e ideias tidas entre eles materializam-se, em parte, nesta canção. Uma música explosiva e dinâmica que guardámos para o final deste álbum – é a despedida nostálgica de um álbum que chega ao fim, mas que está sempre pronto a recomeçar. (MD)


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