Tantos anos após a sua saída dos The Voynich Code, o ex-baixista Miguel Pires quebra o silêncio e regressa aos discos com este novo projecto ao qual chama Vaelthunder. “Expose / Exist” não podia ser mais actual e pertinente: a sobre-exposição online e consequente podridão social que trends e certos discursos originam. Sobre o longo processo de preparação deste disco que nem sabia que o ia ser, sobre as perigosas águas que são as redes sociais e a ironia de recorrer a elas para a promoção do álbum, e até sobre as saudades de umas jams, Miguel Pires abre-se em relação a este álbum, que terá, muito em breve, o seu lançamento também em formato físico.
Vaelthunder representa o teu regresso à música e este “Expose / Exist” tem vindo a ser trabalhado ao longo da última década. Era algo que estavas ansioso por lançar ou quiseste mesmo levar quanto tempo necessário para voltar?
Sinceramente, durante muito tempo nem sabia que estava a fazer um disco. Quando saí dos The Voynich Code deixei de compor ativamente e passei por muitos períodos só como ouvinte, a descobrir coisas novas e a ouvir música sem pensar em fazê-la. As ideias continuaram a aparecer e fui guardando. Alguns riffs deste álbum estavam em gravações de ensaios com muitos anos, esquecidos até encontrarem um sítio onde encaixar.
Nunca houve data nem objetivo. Fui gravando quando dava, em contextos diferentes ao longo do tempo (o meu estúdio foi mudando bastante), e só perto do fim percebi que isto só ficava resolvido na minha cabeça se saísse cá para fora. Aí sim, percebi que tinha um álbum nas mãos e fiquei com vontade de o lançar, de o dar a ouvir ao mundo com uma mensagem forte e com uma produção digna desse nome.
O álbum tem um conceito muito interessante, actual e omnipresente. Resumindo-o, consegues explicar o que te levou a escrever canções com essa temática?
Parte de uma ideia simples: hoje, parece que, para existires, tens de te mostrar, nas redes e fora delas. E isso tem um preço – económico, mental e social. Para alguém que, como eu, não gosta especialmente de se expor, é um verdadeiro fardo. As letras andam à volta disso: da manipulação, do populismo, da obediência cega, das pessoas que fazem da própria exposição um espetáculo, do scroll infinito, do voyeurismo…
De alguma forma também se relaciona com o que tem vindo a acontecer à indústria musical nestes anos. Tenho a sensação de que, em muitos contextos, a própria música acaba por ficar em segundo plano, refém de hooks de 2 ou 3 segundos, atrás de conteúdo que só existe para somar visualizações, e quem faz música é obrigado a entrar nesse jogo. Escrevi sobre isto com plena consciência de que inevitavelmente também faço parte desta máquina, e por isso acaba por ser também uma autorreflexão.
Com um conceito tão forte, não temes a linha entre o álbum não ter promoção suficiente, ou ter que sucumbir um pouco às ferramentas que originam os males de que as letras falam?
Temo, e vivo nessa linha todos os dias desde que comecei a promover o álbum. Fiz um disco a criticar a economia da atenção e agora, para que alguém o ouça, tenho de o lançar exatamente no sítio que critico.
Mas essa é também a beleza da coisa. Fazendo-o de dentro para fora, tenho legitimidade para tocar em alguns pontos críticos. Não de forma altiva, mas como alguém que faz parte do problema e o expõe, à procura de uma solução. Na minha opinião, o que está errado não é a atenção ou a procura dela. É a forma como se faz. E aquilo que efetivamente acaba por receber atenção. Não há volta a dar, por isso prefiro assumir a condição em que o faço.
Do ponto de vista de promoção, esta questão complica-se ainda mais porque passei muito tempo afastado do meio – à exceção de continuar a ser um ávido consumidor de música, obviamente. Em dez anos, muitas das pessoas que conhecia saíram deste meio dito mais underground e acabei por perder o contacto com outras tantas. E quem antes me ajudaria a pôr um disco a circular já lá não está. Estou a refazer contactos do zero, o que é esquisito quando já se andou nisto. E não tenho grande jeito para me expor, custa-me. O tema do álbum não é inocente, como podes perceber… O que tento é ficar longe de trends e truques de algoritmo, e fazer com que o disco aguente mais do que os cinco segundos de atenção que hoje se dão a qualquer coisa. O bom disto tudo é que não tenho qualquer expectativa.

E, no entanto, começaste com isto há dez anos e o assunto não envelheceu. Sentes que está tudo igual ou que ainda piorou? Isso contribuiu ainda mais para inspirar as músicas?
Ficou pior, e as letras foram apanhando isso. Escrevi-as em alturas diferentes. Uma boa parte saiu durante o confinamento de 2020, outras só as fechei já no fim, quando o extremismo e a estupidez natural pareciam crescer mais depressa do que a inteligência artificial.
Quando comecei, as redes ainda me pareciam um sítio onde as pessoas partilhavam coisas. Hoje são um palco onde toda a gente tem de atuar, e o que ganha é quase sempre o que grita mais alto. As ideias mais velhas e mais feias que conhecemos voltaram a circular com uma nova roupagem, a falar a linguagem da multidão, e a dizer às pessoas exatamente aquilo que elas querem ouvir. E quem as espalha muitas vezes nem dá por isso. Partilha, reencaminha, repete, convencido de que está a dizer algo seu. A “Among Borrowed Tongues” nasceu muito daí, uma espécie de coro a repetir em uníssono ideias cuja origem é desconhecida.
A “Hollow Passenger” vai pelo mesmo caminho. É sobre populismo, sobre a forma como as ideias falsas se montam e se espalham centradas em figuras mediáticas, e chega a uma conclusão que me deixa inquieto, mas que parece fazer todo o sentido: muitas vezes a melhor forma de calar quem propaga uma mentira é não lhe dar atenção, por mais tentador que seja combatê-lo com argumentos, porque o ruído vai sempre sobrepor-se à razão. Honestamente, podia escrever uma tese sobre o tema porque material não faltou ao longo destes dez anos.
Quanto à música, mantém-se dentro de um estilo que já te é familiar, mas já a seguir por outros caminhos. Sentes que precisavas mesmo desta liberdade estilística quando ainda estavas nos The Voynich Code?
Para te ser sincero, na altura não sentia falta de nada. Numa banda que primava pela tecnicidade, entras num registo em que tudo tem de ser exigente, quase como prova de valor, e isso sempre me pareceu natural. Foi um desafio que nos ajudou a chegar mais longe – e continuou a fazê-lo de forma ainda mais evidente, depois de eu sair da banda. Só larguei essa exigência nos anos que se seguiram, em que deixei de tocar e passei, sobretudo, a ouvir.
Com a idade também se ganha alguma clarividência… e perde-se destreza. Conheço melhor os meus limites e sei que o tempo e a cabeça que tenho hoje mudam a forma como componho. Deixei de achar que tudo tem de ser virtuoso para valer a pena. Neste disco toquei o que me apetecia em cada momento, sem me preocupar com rótulos. Daí ser um álbum eclético dentro do metal, em que as músicas se ligam mais pelo tema do que pelo subgénero. É cru e despretensioso, com espaço para o imprevisto e para o erro, como faço questão de o dizer.
Dizes que há canções já a ser feitas ao longo de uma década. Sofreram muitas alterações com o passar do tempo? Consegues ouvir algum tema e situar a altura da vida em que te encontravas quando o escreveste?
É difícil responder, porque as músicas não foram feitas uma de cada vez. Há riffs que vêm de ensaios antigos e ficaram parados anos até terem onde entrar. Há outros que só escrevi já em estúdio, com mais intenção, para resolver partes específicas, colar outros riffs, acrescentar peso ou deixar respirar. Claramente alguns deles levaram ajustes no tracking final, mas o que se ouve no disco não foi excessivamente mastigado. No entanto consigo-te dizer o que tinha no ouvido quando compus alguns deles, sem qualquer pudor, porque não é um disco que reinventa a roda, aliás, sempre fui muito honesto em relação a isso. Aí sim, parece-me fácil de reconhecer, por exemplo, o flair de Every Time I Die na “Sub Scribed” (RIP Andy), a urgência de Converge na “Fake Smiles and Holy Water”, ou o arrastamento mais sludgy dos primórdios de Mastodon na “Hollow Passenger” (que é provavelmente uma das minhas favoritas do disco).
Para além disso, o metal que se escreve e ouve hoje em dia é diferente do que se fazia há 10 anos. Algumas das bandas que me marcaram até essa altura deixaram de tocar, outras reapareceram em projetos novos, e houve ainda as que entraram de pontapé na porta e trouxeram frescura ao género. Isso foi abrindo caminho a ideias que no início nem me passavam pela cabeça e que só se tornaram possíveis porque o álbum demorou uma década a ganhar forma.
Temporalmente, onde consigo situar melhor as coisas é nas letras. À exceção de três delas – “Among Borrowed Tongues”, “All Adrift” e “Hollow Passenger” – todas foram escritas durante o confinamento, altura em que a cultura de “mindless live streaming” teve o seu boom; daí o grande foco nas temáticas de social media.
Já consegues definir se Vaelthunder é projecto para continuar com mais registos daqui para a frente? Ainda te vês a manter-te nos mesmos moldes estilísticos, ou tens aqui a oportunidade de explorar qualquer coisa que te ocorra?
Há uma frase que tenho usado na comunicação do disco, que aponta no sentido de este ser o único registo de Vaelthunder: “the sole studio album of”. Por agora é verdade, vamos ver se se mantém. Não tenho nada planeado. Este disco foi feito sem saber se ia sair e ainda o estou a digerir. Se vier outro, quero ter liberdade para ir para onde me apetecer. A única coisa que sei ao certo é que escrever sozinho é ágil, mas isola muito, e tenho saudades de juntar malta numa sala para umas jams e ver o que sai dali.
Não sei se consideras que um projecto a solo como este seja algo terapêutico… Mas vês-te pronto a voltar a trabalhar novamente em banda no futuro? E Vaelthunder, é projecto para levar para o palco?
Acho que já dei meia resposta na questão anterior. É terapêutico e claramente um escape, mas rapidamente se pode tornar monótono. Daí ter demorado tanto tempo a acontecer. Quando comecei a perceber que tinha um disco em mãos, a ideia era juntar outros músicos para participar nele. Ainda houve algumas incursões mas nunca se chegaram a concretizar. Hoje toda a gente tem vidas cheias e pouco tempo, e muitos dos que eu teria convidado já deixaram de tocar. Houve um momento em que aceitei que este disco ia ser só meu, feito ao meu ritmo, e isso sim, foi terapêutico.
O palco saiu da equação desde cedo. Foi uma decisão muito ponderada, e a única viável à data: assumi que Vaelthunder ia ser um projeto de estúdio, precisamente por causa destas limitações, de tempo, de disponibilidade das pessoas, de tudo aquilo de que já falei. Tenho muitas saudades do palco, confesso, e custa-me um bocado, mas fiz as pazes com isso quando decidi avançar sozinho.
Dito isto, quero muito voltar a juntar malta para tocar. Mas sem compromissos. Voltar ao início e tocar só pelo prazer de tocar com outros músicos… aliás, mais do que isso: tocar com amigos.