“Há duas opções para bandas da minha idade: digressões de celebração ou música nova. E eu estou farto de celebrar.” É com esta clareza desarmante que Jim Ward resume o estado de espírito por detrás de Cut A Silhouette, o sexto álbum dos Sparta, que será editado a 29 de maio via Rude Records / Equal Vision Records.
Para quem acompanha a banda desde Wiretap Scars, a frase diz muito. Os Sparta fizeram as suas próprias celebrações, digressões de aniversário dos primeiros dois discos, regressos, paragens. Ward sabe o que é viver do passado. Sabe também quando parar.
Escrito em todo o lado, gravado em sete dias
Cut A Silhouette nasceu de forma pouco convencional. Durante um ano, as músicas foram escritas em pedaços: quartos de hotel, soundchecks, salas de ensaio, qualquer lugar onde houvesse tempo e espaço. “Everything You Say” começou numa sessão em El Paso, foi ajustada num quarto de hotel em Oklahoma City e tocada num soundcheck nessa mesma noite. “Midnights” foi escrita e gravada numa hora em estúdio com Carlos Arévalo dos Chicano Batman. “Glimmer”, pelo contrário, estava noventa por cento pronta em cinco minutos e depois demorou oito meses a ficar concluída, com Ward a mudar as letras até ao último momento possível. “Todas as músicas tiveram a sua própria história”, diz. “Talvez seja por isso que gosto tanto deste álbum: o processo foi diferente do início ao fim.”
“Senti que já sabíamos onde estávamos com as músicas, uns com os outros e com o J. Robbins”, diz Ward. Tinha a opção de mais semanas em múltiplas cidades e recusou. O resultado, diz, é um disco em que não mudaria nada.
Gravado em sala, todos juntos ao mesmo tempo, o disco tem uma presença física que Ward resume numa frase: “Foi exactamente como uma banda de rock deve ser.” Essa banda tem agora uma formação estabilizada com Matt Miller no baixo e Neil Hennessey na bateria. Hennessey chegou após dois anos e meio de digressões de celebração, o que significa que entrou já com o ADN da banda interiorizado. “Fiquei muito impressionado com a sua capacidade de tocar como ele próprio e ao mesmo tempo mostrar um verdadeiro respeito pela história com o Tony”, diz Ward, referindo-se ao baterista original Tony Hajjar. “Todos temos um profundo respeito pelos antigos membros da banda e pela marca que deixaram.”
Uma jornada necessária
Esse sentido de continuidade atravessa o disco. O álbum homónimo de 2022 era, nas próprias palavras de Ward, um “disco de e-mail”: escrito e gravado à distância durante a pandemia, com cada faixa construída sem que houvesse mais ninguém na sala, e com Tucker Rule dos Thursday a tocar bateria remotamente. “Nunca foi suposto ser uma banda, apenas parte da jornada.” Um processo necessário, admite, para chegar a este. “Precisei de passar por esses vales para me encontrar, para encontrar o líder de banda que quero ser. Não chega escrever músicas e cantar: há todo um outro trabalho que precisei de aprender.”

Frank Iero, Chicano Batman e a nova era dos Sparta
Cut A Silhouette traz também uma lista de colaboradores que marca uma mudança de abordagem. Frank Iero dos My Chemical Romance e L.S. Dunes co-escreveu “Crater” e “Mouthbreather” sem nunca tocar nelas, não por opção estética, mas porque os incêndios em Los Angeles impediram que se encontrassem fisicamente. Iero enviou riffs equivalentes a três músicas, Ward adaptou e devolveu, e o resultado ficou. “Ele sabe que é sempre bem-vindo e espero mesmo que escrevamos mais juntos”, diz Ward. Kemble Walters dos Chevelle co-escreveu e toca em “See You Soon”. Brooks Harlan, que toca nos Jawbox com Robbins e nos War On Women, aparece em várias músicas. Carlos Arévalo dos Chicano Batman toca guitarra em “Midnights”. “As colaborações são uma novidade para mim, mas foram muito divertidas e muito produtivas neste disco”, diz Ward. “Acho que esta é a próxima era da banda: amigos e diversão.”
O título chegou por um caminho inesperado. Ward estava a ver um documentário sobre John Candy quando ouviu Macaulay Culkin descrever o comediante com uma expressão que o fixou: quando conhecia alguém, entrava no teu cérebro e deixava uma silhueta, uma marca inesquecível. Depois de meses à procura de um nome para o disco, a resposta estava numa frase sobre um comediante morto há trinta anos. “É isso que quero que este disco seja”, diz Ward. “Quero que deixe uma impressão.”
Cut A Silhouette é um disco sobre querer ser lembrado, não pela nostalgia, não pelos primeiros dois álbuns, não pelos anos nos At The Drive-In. Ward está farto de celebrar. O que quer agora é fazer música nova. E pelo som disto, tem razões para isso.