Já há um bom tempo, quando se deu a tal catadupa de actos pesados britânicos que deu origem a um popular termo, Terry e Alan Jones, pai e filho, destacaram-se com os Pagan Altar, um acto bem mais doom e ocultista que muitos dos seus contemporâneos. Muito do que fizeram apenas se viria a materializar décadas mais tarde. Agora é a Dying Victims Productions que os está a ajudar a resgatar esses clássicos, comemorando as duas décadas de “Mythical & Magical”… Repleto de canções concebidas há mais décadas ainda. Para uma sessão de nostalgia, é Alan Jones, guitarrista e sobrevivente do clã Jones, quem aqui encarna o saudosista.

Muitos estão a dizer que o vosso melhor álbum está a ser finalmente reeditado. Concordas com isso e consideras que o “Mythical & Magical” tem esse estatuto, ou simplesmente não consegues escolher um favorito entre os teus próprios discos?

O “Mythical & Magical” é, provavelmente, o meu favorito de todo o nosso catálogo, mas não particularmente por causa da música, mas sim pela gravação dele. Fizemos esse álbum e o “Lords of Hypocrisy” numa casinha de tijolo no fundo do jardim do meu pai, em Plumsted, que nós próprios construímos como um estúdio, e passámos os fins-de-semana a trabalhar nele. O “Lords” foi uma experiência de aprendizagem para mim, no que dizia respeito a mistura e gravação, que eu realmente não sabia o que estava a fazer. Pela altura do “Mythical”, eu ainda não sabia o que estava a fazer, mas tinha aprendido com muitos erros que tinha cometido no “Lords”. Já musicalmente, o favorito muda sempre, dependendo da disposição que tenha.

Como foi revisitar essas canções de tempos antigos e recordar os tempos mais antigos ainda, quando foram inicialmente criados?

Na altura nem pensei muito no assunto e simplesmente fizemos a abordagem como se estivéssemos a fazer um álbum novo. Acho que agora que o meu pai (Terry Jones, original vocalista e fundador) já não está entre nós, já penso muito mais na altura em que o gravámos e o tocámos ao vivo. Especialmente agora que se tornou muito mais difícil para mim fazer essas coisas.

Como tem sido a experiência com a Dying Victims Productions de trazer estes clássicos de volta e apresentá-los a um novo público?

Quando começámos, éramos uma unidade contida e fazíamos tudo por nossa conta, até lançávamos nós próprios os discos, mas começámos a deixar outras companhias discográficas lançá-los quando isso se tornou demasiado para nós. O meu pai morreu em 2015 e, após uns dois aninhos, eu queria acabar o que tínhamos começado com o “The Room of Shadows” e concluí-lo, para manter o nome do meu pai vivo por mais um pouco.

Eu sou um músico e, definitivamente, não alguém que saiba alguma coisa sobre a indústria musical, portanto tivemos sorte que os nossos estimados amigos, a Annick Giroux e o François Patry, estavam mesmo a começar a sua editora, a Temple of Mystery, e eu queria alguém em quem pudesse confiar. Então pedi-lhes se queriam arriscar e lançá-lo.

Após alguns anos, a Temple of Mystery não pôde prosseguir, então a Annick sendo a Annick, certificou-se que todas as bandas na sua editora teriam uma nova casa e foi aí que nos encaminhou para o Florian Grill, da Dying Victims. O Florian tem mantido o mesmo acordo que tínhamos com a Annick, e tem sido muito paciente, considerando que não fomos capazes de promover o novo álbum no ano passado, por eu não estar bem.

Olhando para trás para os vossos clássicos, sem falhas para os ouvidos dos fãs… Há algo que gostarias de ter feito de forma diferente?

Gostava de ter ido para um estúdio em condições e fazer as canções soar um pouco melhor, mas nunca tivemos qualquer suporte para o fazer, portanto é o que é.

Acho que, de certa forma, na altura em que estávamos a lançar esses álbuns, pessoas provavelmente procuravam algo mais cru, mais “rough around the edges” e não tão polido e, por uma vez, estávamos no sítio certo e na altura certa.

Mythical & Magical | Pagan Altar | Dying Victims Productions

O vosso som é inequivocamente tradicional e à moda antiga, mas mistura elementos e diferentes influências que estavam um pouco à frente do seu tempo na altura em que foram escritas, no final dos 70s e início dos 80s. Achas que, se este disco tivesse sido lançado naquele tempo, teriam um ainda maior reconhecimento?

Por acaso, os três primeiros álbuns estão todos pela ordem contrária à que foram escritos. Algum do primeiro material dos 70s está no “Mythical & Magical” e no “Lords”, e o material dos 80s estava maioritariamente no primeiro álbum, o “Volume 1”, ou “Judgement of the Dead”, ou o que lhe queiras chamar.

Respondendo… Talvez sim, talvez não. É muito difícil de saber. A imprensa musical no início dos 80s andava a chamar-nos dinossauros já na altura, junto dos Black Sabbath, Deep Purple e o resto das bandas com a sonoridade do início dos 70s, e estavam a destacar as bandas de metal mais inspiradas por punk, mais rápidas e enérgicas, nas quais nós, desafiadores, não encaixávamos.

Sentem que são uma parte importante da “New Wave of British Heavy Metal”? Estavam sequer a pensar nessa onda e nesse termo, na altura?

Não acho que fossemos da New Wave of British Heavy Metal. Aliás, nem classificaria a banda como heavy metal sequer. Não é que eu esteja a atacar alguma das bandas que lá andavam na altura em que começou, eu até ia a muitos dos concertos deles com os meus amigos e divertia-me imenso. Fomos sempre uma banda de “heavy rock”, que é o termo que era utilizado quando começámos a tocar. Fico muito feliz se as pessoas nos quiserem colocar nessa categoria, assim como o “doom” ou qualquer outra, mas, para mim, somos e seremos sempre uma banda de “heavy rock”.

E actualmente vemos muitas bandas jovens a praticar um som “old school”, muitas até a emular Pagan Altar. O que sentes em relação a esses actos revivalistas? Gostas da forma como soam ou não achas que realmente capturem como era ter uma banda naqueles tempos?

Acho óptimo que estejam a fazer um esforço para manter o som antigo vivo. Se estão a escrever o seu próprio material, porque não? Mesmo que ouças bocados de Pagan Altar, e de outros, nas canções, está tudo bem. Com certeza que pessoas conseguirão ouvir as nossas influências por toda a música de Pagan Altar.

Notas, a partir de reacções e actuações ao vivo, que ainda têm continuamente fãs mais jovens?

Se existirem mais jovens, só se trouxerem embriões para o espectáculo! (risos) Nem por isso. Certamente tem havido uma notável quantidade de espectadores mais jovens, mas provavelmente estão num festival para ver outra banda e apanharam-nos pelo caminho. Fico contente por vê-los lá. Significa que a nossa música viverá por mais um tempo.

Agora estamos todos curiosos. Existe ainda alguma coisa dos tempos iniciais dos Pagan Altar que tenha ficado no baú e que ainda possamos vir a ouvir um dia?

Não, já não há nada escondido lá no fundo. A única canção que nunca fizemos foi uma chamada “Lilly Maid of Astomat”, que era uma balada com muitas estrofes, se me lembro correctamente. Encontrei-a recentemente numa cassete velha e regravei-a com a minha irmã, só por diversão. Não havia nada com a letra dessa canção escrita, então tive que apanhar alguns versos a partir da cassete, mas estava em tão mau estado, que pedi à minha irmã para concluir as últimas estrofes e ela cantou-as. A “Lilly Maid of Astonat” está na mesma onda que a “The Erl King”. Para além disso, já não sobra qualquer música antiga.

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