Num panorama musical saturado de crescendos previsíveis e nostalgia instrumental, os suecos Oh Hiroshima têm conseguido esculpir um espaço inteiramente seu. Com o novo álbum, And the Dead Tree Gives No Shelter (a ser editado a 5 de junho pela Pelagic Records), o projeto mergulha no deserto conceptual de T.S. Eliot para cartografar o cinismo e a apatia que marcam o nosso tempo. Contudo, longe de se render ao desespero, a banda regressa com um registo focado, onde a urgência rítmica e a contenção servem de abrigo contra o desencanto global. Aqui, os Oh Hiroshima desconstroem a arquitetura sónica do disco, recusam o facilitismo das pistas pré-gravadas em palco e definem a esperança não como uma utopia ingénua, mas como um ato de resistência ético, feito de fragmentos e sobrevivência.
No texto de apresentação do disco falam de “uma idealização não enraizada na ingenuidade mas no realismo”. O que significa, para vocês, manter algum tipo de esperança sem cair na negação da realidade? E até que ponto essa tensão influenciou a própria construção emocional e musical do álbum?
Essa é a pergunta que tentamos explorar com este álbum, em parte porque eu próprio não tenho a certeza da resposta. No entanto, sinto genuinamente que é uma questão que exige uma resposta. Carecemos de ideais solidamente construídos, o que nos deixa vulneráveis a qualquer pessoa que fale com convicção: e é fácil encontrar exemplos do quão perigoso isso é. Talvez a resposta resida numa definição de esperança que não signifique que “tudo vai ficar bem”, mas simplesmente que faz sentido viver uma vida ética, mesmo que não consigamos ver os seus efeitos diretos no mundo. Acho que essa ambiguidade também se faz sentir na música deste disco. Há a nossa melancolia habitual, mas também uma espécie de luz latente.
Em entrevistas anteriores falaram da vontade de fugir a alguns clichés associados ao post-rock e de expandir a vossa linguagem musical para lá dessas fronteiras. No entanto, “Meridian” é descrita como um regresso deliberado às raízes do género. O que mudou na vossa relação com essa linguagem? Sentem que hoje conseguem dialogar com o post-rock de forma mais livre?
É verdade que, quando estávamos a escrever o nosso quarto álbum, Myriad, tomámos decisões deliberadas no sentido de não usar certos tropos do post-rock que são facilmente sobreutilizados. Não porque tenhamos necessariamente algo contra eles, o post-rock continua a ser uma parte fulcral do nosso som, mas para nos desafiarmos a não ficar presos às mesmas técnicas vezes sem conta. Desde então, a nossa música alargou-se e evoluiu. Com este álbum, trouxemos alguns desses elementos de volta porque sentimos que as canções já eram suficientemente diversas para os conter sem que soassem a cliché.

Desta vez destacaram bastante o trabalho de bateria e a sua captação no Studio Gröndahl, algo pouco comum num género normalmente associado sobretudo à atmosfera e às guitarras. O que mudou na vossa abordagem ao ritmo neste álbum? Sentem que a componente rítmica passou a ter um papel mais estrutural na forma como as músicas crescem e ganham intensidade?
A bateria sempre esteve um pouco na linha da frente da nossa música. É uma decisão tomada no processo de mistura e temos mantido as coisas assim porque ajuda a música a soar mais poderosa, além de fazer com que o resto da instrumentação, tantas vezes atmosférica, se sinta mais terra a terra. O que correu de forma diferente desta vez foi o facto de termos tido a oportunidade de trabalhar num estúdio com excelentes condições para gravar bateria e com o Karl Daniel Lidén, que é ele próprio um baterista experiente. Diria também que a bateria e o baixo assumiram um papel ligeiramente maior na condução de algumas das composições.
Já falaram anteriormente sobre o risco de trabalhar demasiado em demos caseiras e entrar num processo interminável de revisão e aperfeiçoamento. Neste álbum houve uma divisão clara entre o trabalho feito em estúdio e o que foi desenvolvido mais tarde em Örebro. Como geriram essa fronteira entre o controlo criativo total e a necessidade de aceitar limites e deixar as músicas respirar?
Acho que é simplesmente algo em que nos tornamos melhores quanto mais trabalhamos nisso. Este é o nosso terceiro disco como duo e trabalhar com demos muito estruturadas foi algo que começámos a fazer para conseguirmos produzir música sendo apenas duas pessoas. Tanto as partes gravadas em estúdio como as coisas que gravámos nós próprios em Örebro foram escritas de antemão, salvaguardando pequenos ajustes. Se algo nos parece bem logo desde o início, tentamos não estragar.
Este é o vosso álbum mais ambicioso em termos de instrumentação e colaboradores, com vários músicos convidados a expandirem a paleta sonora do disco. Como estão a imaginar a transição destas músicas para palco? A ideia passa por recriar o máximo possível do álbum ou por deixar que as canções ganhem uma identidade diferente em concerto?
Nós tocamos sempre ao vivo como um quarteto. Dois amigos nossos, o Jocke e o Jalle, acompanham-nos nos concertos desde 2022 e vemo-los como membros permanentes da formação ao vivo. Escrevemos sempre a pensar numa banda de quatro elementos, pelo que tentamos não adicionar demasiados ornamentos às canções em estúdio. Não queremos mesmo usar pistas pré-gravadas ou coisas do género: preferimos fazer pequenos rearranjos para que as canções funcionem melhor ao vivo apenas com quatro pessoas.
O vosso álbum anterior parecia procurar recuperar algum sentido de maravilha e transcendência num mundo cada vez mais difícil de habitar. Já And the Dead Tree Gives No Shelter parte de um lugar mais árido, usando a imagem de T.S. Eliot para explorar ciclos de desespero e apatia. Sentem estes dois discos como capítulos de uma mesma reflexão? Ou o novo álbum representa uma mudança de perspetiva em relação ao anterior?
Ambos abordam o mesmo tipo de temas. O All Things Shining lidava com a perda do espanto e o And the Dead Tree Gives No Shelter foca-se na perda da capacidade de agir no mundo. Diria que ambas as premissas estão relacionadas com sentimentos de falta de sentido. Este novo disco, contudo, tem uma trajetória mais esperançosa. Como referes, começa num lugar de desespero, mas as letras em si são compostas maioritariamente por imagens de esperança, apontando para uma grande reviravolta no estado das coisas em direção a algo novo, de forma a contrariar essa desolação. É a isso que o título do álbum se refere: trata-se de abandonar a árvore morta do desespero, porque ela apenas acentua o nosso sofrimento, tentando imaginar algo diferente e significativo.

Em “Broken Sunlight” surge a imagem de “a shard of hope“, um fragmento de esperança. O que vos atraía nessa ideia de esperança como algo fragmentado e sobrevivente, em vez de uma ideia de esperança inteira ou luminosa?
Para mim, e penso que para muitas outras pessoas, é tudo a que nos conseguimos agarrar neste momento. Suponho que remete para a tua primeira pergunta sobre o equilíbrio entre esperança e realismo.
O álbum tem um núcleo conceptual muito definido, desde a referência a T.S. Eliot até às ideias de cinismo, apatia e perda de sentido, mas a vossa música continua a funcionar de uma forma muito emocional e aberta à interpretação do ouvinte. Como equilibram essas duas dimensões? O conceito funciona mais como um guia interno para vocês ou esperam que o público entre realmente nesse universo temático?
Não podemos saber como o público vai reagir ou identificar-se com a música ou com as letras. Tudo o que podemos fazer é escrever coisas com as quais nós próprios nos consigamos identificar. Olhando para trás pode parecer que os temas são muito deliberados, mas emergem de forma orgânica durante o processo de escrita. Não é que eu tenha uma visão clara do que quero dizer, estou apenas a processar estes temas internamente através da composição musical e, assim que o trabalho está concluído, conseguimos ver a imagem completa.
Falaram várias vezes sobre desilusão, isolamento e a dificuldade de imaginar um futuro luminoso, mas também sobre a necessidade de encontrar algo que nos permita seguir em frente. O que esperam sentir quando começarem finalmente a tocar estas músicas ao vivo perante outras pessoas? Acham que o concerto pode transformar emocionalmente estas canções de uma forma diferente da experiência solitária do álbum?
Espero mesmo que sim. Tocar ao vivo e ver as pessoas ligarem-se à música é algo muito especial. É algo esperançoso por si só, porque mostra que conseguimos quebrar o isolamento, unir-nos e partilhar as emoções que tentamos transmitir com a nossa arte. Embora a nossa música possa ser melancólica, o sentimento geral após um concerto é, na verdade, muito revigorante, precisamente por causa da experiência partilhada da qual todos fizemos parte.