Chiodos

Devil
2014 | Razor & Tie | Post-Hardcore

Partilha com os teus amigos

Tanto os Chiodos como o género onde se inserem têm andado a batalhar ao longo dos finais da década passada e início da actual. No que diz respeito ao pós-hardcore mais juvenil, este vê alguns dos seus principais cabeças de popularidade como os The Used ou os Funeral for a Friend a perder muita da fasquia e a relevância de que desfrutaram. Aí também se incluem os Chiodos, que também tinham as suas batalhas internas com a saída do vocalista Craig Owens e a sua substituição. Com nova voz, trouxeram-nos “Illuminaudio” em 2010 que, mesmo mostrando-se competente, não tinha força que chegue para se segurar a si e a um género. E Owens foi-se entretendo com os Destroy Rebuild Until God Shows – ou D.R.U.G.S. para os mais preguiçosos – com quem lançou um único álbum que não conseguiu igualar o seu hype – o que é pena, porque a sua abordagem mais crua e directa talvez fosse a mais ideal para arrebitar o género, se tivesse conseguido mais atenção.

Com esta breve história, já parece que vemos os Chiodos a correr de um lado para o outro, em desespero, para encontrar a solução para eles próprios. A primeira parte resolveram-na: reuniram-se com Craig Owens para fechar esse capítulo da novela e aumentar hype para um novo lançamento – sendo hype algo que já se tinha dispersado para eles. Faltava a segunda parte: não se limitar com lançar um “Bone Palace Ballet II” para contentar de forma segura. Desviaram também esse assunto, encarando-o de outra forma: “Devil” é o “Bone Palace Ballet” do presente, após tudo o que se passou na banda, nestes sete anos de diferença entre álbuns com o selo vocal e lírico de Owens.

Os elementos que fizeram de “Bone Palace Ballet” de 2007 a obra-prima que encantou tantos quanto irritou estão lá audíveis. A banda continua a construir os seus alicerces através de melodias pop punk envoltas em mantas de sensibilidade e agressividade, fórmula que nem sempre é das mais fáceis de digerir. Ou seja, ainda continuam a adocicar um certo negrume que os caracteriza, recorrendo a fontes de pop ou soul, sem ter medo de arrebatar com uns breakdowns de flectir joelho e alguns berros para contrastar – “Behvis Bullock” e “Expensive Conversations in Cheap Motels” são das que mais se exaltam em todo o conjunto. Essa parte já conhecemos. E se for preciso sugar tudo ao pop punk como em “3 AM”, que podia ter sido cantada por uns Paramore, ou em “I’m Awkward & Unusual”, continuam a fazê-lo. O auxílio de instrumentalização clássica continua forte e a utilização de piano e arranjos sinfónicos para condimentar ainda mais o arraial emo que para ali vai, ainda faz parte do esqueleto de todas as canções. A voz de Craig Owens, cujas alturas que atinge ainda é impressionante, continua a ser um gosto adquirido – verifique-se o início de “Why the Munsters Matter” como exemplo – mas neste “Devil” já parece estar mais controlada para não rebentar a escala e afugentar algum curioso novo ouvinte. Também se louva aqui muito trabalho de guitarra, com a estreia de Thomas Erak, que já era conhecido a fazer loucuras nos The Fall of Troy.

Se ainda não pararam de ler ao início do parágrafo anterior, que enumerava as razões para este álbum ser competente aos ouvidos de alguém que já digerisse os Chiodos e o seu género anteriormente, continua aqui a louvar-se a recorrência ao pop para criar alguns dos seus mais altos momentos, através de melodias mais pegajosas. Se, por vezes, mergulham de cabeça no cheesy para fazer uma “Why the Munsters Matter” ou uma “Under Your Halo”, também utilizam algo mais envolvente e agradável como em “Sunny Days & Hand Grenades”, “Duct Tape” ou a semi-baladeira “Looking for a Tornado” para constituir algumas das faixas de destaque. Mas, numa banda tão polarizadora como os Chiodos, o álbum também deve ter as características que os queimam de imediato, como a sua longevidade, que deixa dispersar a atenção com facilidade ou as letras juvenis que, a certo ponto, arriscam a tornar-se embaraçosas – se o leitor já não tiver algum problema com trintões que cantam as suas emoções com alma de quem está na flor da puberdade… Então também supera essa parte aqui.

A esta altura do campeonato, não dá para ter a certeza se havia muito mais a fazer por parte dos Chiodos. Existia mesmo uma grande responsabilidade por trás da reunião com o vocalista original? Havia uma expectativa muito elevada para um disco que tomou o seu tempo para ver a luz do dia? Perguntas que dão para respostas mistas, mas talvez a única missão que a banda aqui tinha era a de manter o terreno e dizer-nos que ainda estão aqui, a trabalhar à sua maneira. Os próprios músicos já tinham dito que o disco foi composto mais para eles próprios do que para os fãs. O certo é que o colectivo continua igual a si mesmo, por muito que Owens jure que está diferente agora no final de “I Am Everything That’s Normal” – eu sei que o contexto é diferente. Quem gostou do “Bone Palace Ballet” deverá ficar agradado com “Devil” que, não sendo um “Bone Palace Ballet II”, é um “BPB” feito noutro tempo e noutro ambiente. “Devil” pode não restabelecer a banda e o género como um regresso ao “topo da cena”, mas é competente e lembra ao mundo, bem alto, que os Chiodos estão vivos e ainda têm saúde para mais.


sobre o autor

Christopher Monteiro

Partilha com os teus amigos