Almirante Ramos

Fiel ao Romance
2022 | FlorCaveira | Pop experimental

Partilha com os teus amigos

Estamos no fim de 2022, ano dominado por uma guerra e pelo aumento da inflação e em que, pelos vistos, o amor foi esquecido enquanto força motriz da Humanidade. Enquanto o amor não nos salva, teremos sempre o Direito para salvar qualquer coisa e impor comportamentos. Mas há quem faça do amor causa artística e ontológica, como é o caso de Pedro “Almirante” Ramos, antigo pretor da Amor Fúria e actual renovador da pop alternativa portuguesa, que agora edita Fiel ao Romance, o seu primeiro longa duração, editado na editora-compincha FlorCaveira.

Como muitos, também o Almirante teve de passar por um caminho de pedras ou, melhor dizendo, por um mar tormentoso para estabelecer a sua arte. Este é um álbum estrita e fundamentalmente pessoal, um manifesto sentimental e de catarse.

O sofrimento apurou a arte e eis que, depois de Cinco Canções, o Almirante continua a construção da sua obra pessoal com Fiel ao Romance. Não regressa apenas com mais canções onde verte a reflexão emocional a que já nos habituou, mas também com um manifesto vertido naquelas.

Tal como em Cinco Canções, assume-se como porta-estandarte de uma renovação da pop nacional moderna. À ínclita década de oitenta vai buscar os mores maiorum em forma de acordes e aos maiores nomes e feitos da nossa memória colectiva presta reverência através de outro manifesto,  Brava Marítima. Acompanhado novamente por Gagliardini Graça, que assegurou arranjos, produção, misturas e coros, dá ainda a conhecer Rita Borba, cantora que se estreou este ano com Lá Fora.

A génese do álbum vem de um seu projecto anterior, O Verão Azul, intitulando-se na altura Fiéis ao Romance. Passados os anos e mudadas vidas e as ideias, é retirado do baú e a luz de Almirante Ramos é agora outra.

O tema do amor estava já presente em Cinco Canções, ainda que não fosse o assunto central daquele trabalho. O amor à Almirante é um amor de estandarte, é uma causa e uma convicção, vai mais além do amor de Nel Monteiro e da sua Suite 403, por exemplo.

Introdução ao Romance situa-se no âmbito de uns Sensible Soccers ou de Squarepusher. Se podemos imaginar Scarlett Johansson em Lost In Translation a mirar as ruas de Tóquio do seu quarto de hotel ao som de Tommib em busca de alguém, também podemos imaginar o Almirante a compor mentalmente à janela este levantar de âncora, algures na Buraca ou na Estrela ou noutro porto seguro.

Corte abrupto e siga para a pop de peito aberto e de mão dada nas Portas do Céu. A voz remetente para a de Pedro Oliveira da Sétima Legião é já um clássico (e um elo para os tais maiores de ontem) e a canção desenvolve-se num cenário idílico, mas de certa melancolia. O peito aberto e ao mesmo tempo condoído, mas esperançoso.

Se na Guerra Fria (a primeira, que a segunda não tardará) havia um equilíbrio do terror, no romance tem também de haver um equilíbrio do amor. Mas se o primeiro se pode estabelecer (e limitar e reduzir) por tratado, o segundo é muito difícil de conseguir sem esbater o romance e o ideal de amor.
É este o fogo defronte de Fogo de Artifício, sonho midi sobre o confronto do amor, que por vezes estala em foguetório de felicidade e noutras em fogachal de ódio.

A rememoração entrecruza-se com o optimismo e o peito cheio do primeiro contacto em Agosto. Em termos instrumentais é a melhor canção do álbum, completada por uma letra que remete para uma noite de Agosto onde a pessoa perfeita está na pista à espera das primeiras palavras do narrador, qual Beatriz Portinari à espera do seu Dante, isto é, Almirante e seu flow de boa-fé.

O romance de Almirante Ramos não é apenas com pessoas – é-o também com lugares. Eis, pois, Em Marvila. Puxando para uns Beach House, a fluidez melódica da voz relembra pormenores da freguesia lisboeta, onde não há mal que sobreviva e onde a casa é elemento da vida a dois – casa ao fim de uma rua idílica. Se outrora se retratou a dançar debaixo da ponte 25 de Abril, agora retrata o desejo de ter um lar onde a música é perene.

A fidelidade ao romance assume um jaez quixótico em Sonhos. Almirante Ramos, pelo meio de sintetizadores etéreos em ambient de boa cepa, é sincero em crescendo: que uma vida longa, com descendência presente, seja desejo com lugar a ensejo. Pegando noutra Sonhos (a de Ópera Nova), são estes os sonhos do Almirante, nada mais. Ou não fosse ele um homem de família.

De Marvila para o check-in do aeroporto de Lisboa, em Nova Iorque atinge-se certa ressonância pessoal. Cidade que povoa o nosso imaginário desde há três décadas (data da primeira visita), tem também para o Autor um cunho idílico. O percurso assemelha-se a um antigo campo de batalha onde o estandarte do romance chegou a esvoaçar. Da névoa da altura no Empire State Building até à Brooklyn de Hubert Selby Jr., passando pelas Demoiselles d’Avignon no MoMA, sentem-se as dores nostálgicas do Almirante, cuja âncora emocional aparenta nunca ter saído do Hudson.

Missão impossível é ignorar as influências latentes na obra. Desde a pop nacional contemporânea até ao fado, é todo um passeio por subtilezas que tornam o disco mais interessante. Se lhe detectamos as óbvias homenagens aos Heróis do Mar, Sétima Legião e Ópera Nova, também lhe vemos estudo do fado de Maria Teresa de Noronha, patente na contenção melódica, que por seu turno se traduz em alta dignidade – ou, por outras palavras, sem entrar em gritarias azeiteiras para exprimir a sua alma, como muito fado recente.

Deusa Bailarina assemelha-se a um sonho febril. Novamente por caminhos da ambient (ou por certa vaporwave), a deusa da letra parece saída de uma cantiga de amor de D. Dinis, autêntica santa que fez do coração do Almirante seu palco e onde faz o seu ballet divino. Idílica e salvífica.

O pendor familiar de Almirante Ramos volta a manifestar-se em Canção p’ra Leonor e Aos Avós; a primeira uma prolepse e a segunda uma analepse. Um sample de crianças num recreio dá lugar a uma fita do tempo onde Leonor será também dos crentes no romance, como outrora foram os avós, alvo de sóbria reverência.

Contraponto à canção e ao disco seria o de Erasmo de Roterdão, quando este se perguntou qual seria o homem sensato e de boa-fé que se quereria sujeitar aos inconvenientes do casamento ou a mulher que cederia às demandas de um homem apaixonado para depois levar com os incómodos do casamento e os penosos trabalhos da educação de uma criança? Interrogações pertinentes há séculos.

Em jeito de coda, Noite de Verão é a esperança num encontro com alguém que venha ser depositário do nosso coração. Em dueto com Rita Borba, partilham-se não só corações, mas também vozes e canções e, por fim, a noite. Verão rimará sempre com coração, não há volta a dar.

E assim temos não um, mas os vários pavilhões de Almirante Ramos: o do romance/amor em geral e os da saudade e da esperança em particular, de verde bem forte à Sporting, não obstante o Artista ser benfiquista.

Estamos perante um artista singular e chamar-lhe romântico seria redutor e, quiçá, insultuoso. Não é um (saudoso) José Pinhal porque não vive de emoções desbragadas e afasta-se de demais românticos de microfone porque o amor é aqui bandeira e ontologia com substrato, não apenas uma cantoria para engatar e depois chorar com as consequências disso. É mais do que isso, é metafísica em formato música pop.

De certa maneira, este álbum é um manifesto e um disco conceptual. Ainda que singelo na abordagem instrumental, a aparente simplicidade das letras levanta questões sobre o romance e o amor que serão actuais até ao fim dos tempos – ou até a Humanidade ser suplantada por máquinas, pelo menos. Para os emocionalmente decepados, quais Duartes de Almeida da melomania, é um ponto de partida para a salvação da sua fé.

Fiel ao Romance é dedicado a todos aqueles que acreditam no amor, uma bandeira que não é para ser arreada.

 


sobre o autor

José V. Raposo

Partilha com os teus amigos