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Three Billboards Outside Ebbing, Missouri
Título Português: Três Cartazes à Beira da Estrada | Ano: 2017 | Duração: 115m | Género: Policial, Humorístico
País: EUA | Realizador: Martin McDonagh | Elenco: Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, Caleb Landry Jones, Peter Dinklage

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri é o regresso à ruralidade dos Estados Unidos, às pequenas cidades em que todos se conhecem, e ao realizador britânico Martin McDonagh, que já nos tinha maravilhado com o seu humor negro em In Bruges (2008) e Seven Psychopaths (2012). O cineasta é também um reconhecido dramaturgo, o que explica a abordagem cénica e a construção de personagens-tipo nas incursões pelo grande ecrã. E que explica também o desenvolvimento nuclear e contido da narrativa neste filme, com a acção concentrada numa população que parece limitada a 30 pessoas…

A história de partida tinha tudo para transformar Three Billboards Outside Ebbing, Missouri. num dramalhão ao nível de Mystic River (2003), mas Frances McDormand não seria a protagonista indicada para a explosão de raiva que imortalizou Sean Penn no filme de Clint Eastwood. Pelo contrário, a actriz volta a impressionar-nos com a sua personificação de uma mulher complexa marcada pela dor, mas reerguida pela esperança.

É uma mãe inconformada que perante o assassinato da filha decide confrontar as autoridades, já que a justiça não faz o seu papel. O confronto não é físico, mas é violento: e daí o título do filme. Nos três outdoors questiona directamente o chefe da polícia local, um papel de Woody Harrelson, pelas pontas soltas – cartazes estes colocados no local do crime, a escassos metros da casa onde a jovem vivia.

Mildred Hayes (Frances McDormand) é uma força indomável, a lembrar a Rosie do cartaz “We Can Do It” de J. Howard Miller com o seu fato-macaco e lenço no cabelo, que não se deixa vergar pela perda. Talvez se sinta responsável pela morte da filha, e até se nota que é movida pelo desespero da ausência das respostas, mas em momento algum age de cabeça quente e manifesta sempre uma presença de espírito marcante. Não quer ser vista como uma vítima nem se considera como tal, apesar da violência do casamento desfeito, camuflando o medo com humor e comentários dilacerantes. Mas é, acima de tudo, alguém muito inteligente que discerne com claridade o homem e o seu papel, abrindo portas ao perdão dos antagonistas.

É neste turbilhão de emoções que encontramos um perfeito retrato das zonas cinzentas da vida, e que valem a Frances McDormand o elogio da crítica e a premiação da indústria. Nomeada na categoria de Melhor Actriz, desenha-se o cenário perfeito para voltar ganhar, depois daquela arrebatadora cerimónia de 1997, em que levou estatueta pelo seu papel em Fargo, dos irmãos Coen.

Ao longo dos anos, Woody Harrelson e Sam Rockwell habituaram-nos à carreira construída à margem da indústria, com papéis bizarros e arriscados. Neste Three Billboards Outside Ebbing, Missouri estão do outro lado da barricada, em confronto directo com Mildred Hayes, mãe da vítima de um crime que não conseguem resolver.

Particularmente Jason Dixon (Sam Rockwell) é o reforço do brutal estereótipo da força policial norte-americana, um provinciano racista e homofóbico, violento e incapaz de medir a consequência dos seus actos. Mas, verdade seja dita, a reflexão sobre os actos em nada mudariam a história: se no passado as acusações de Dixon não foram comprovadas, nem quando um sénior policial testemunha um espancamento enraivecido, há qualquer acção, acusação ou detenção. Será uma crítica à instituição e ao compadrio, ou simplesmente uma enorme incoerência no argumento, ou ainda uma saída fácil que reduz as personagens a pano de fundo para que o foco na principal seja mais intenso?

O arco de redenção de Dixon é um bom momento do filme, mas só porque Sam Rockwell assume as rédeas de um homem instável e problemático, que se martiriza quando reconhece os erros cometidos. O vil passado é inconsequente e varrido para debaixo do tapete com uma leveza desmerecida, especialmente quando a descriminação racial ainda é uma das principais barreiras da sociedade norte-americana.

De resto, este é apenas um dos momentos mal-resolvidos no filme. A falta de imaginação no argumento chega a ser gritante quando a esquadra fica convenientemente em frente à agência publicitária, Jason não sente sequer o cheiro a queimado, o agressor e a vítima são internados no mesmo quarto do hospital, as profecias nas últimas palavras de Mildred à filha e de Willoughby a Dixon, Peter Dinklage reduzido ao papel de “anão da cidade”, a mulher exótica do chefe da polícia naquela pequena cidade rural. Aliás, nem os crimes de Mildred são investigados ou penitenciados, mas antes simplesmente caídos no esquecimento com uma risada – tal como a morte da filha?

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri é, acima de tudo, um filme engrandecido pelas interpretações e que tenta refugiar-se na beleza da estética que rodeia a cidade. Não encerra com resolução, nem grandes explicações, apesar de levantar interessantes questões morais nos últimos minutos. Mas, no fundo, a vida é mesmo assim: nem sempre as respostas chegam quando mais desejamos, por vezes somos obrigados a seguir por caminhos inesperados. Há apenas que manter a cabeça erguida e nunca entregar o controlo ao desespero.


sobre o autor

Isabel Leirós

"Oh, there is thunder in our hearts" - Fernando Pessoa (Ver mais artigos)

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