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Rogue One – A Star Wars Story
Título Português: Rogue One | Ano: 2016 | Duração: 134 minutosm | Género: Acção, Ficção Científica
País: EUA | Realizador: Garteh Edwards | Elenco: Felicity Jones, Diego Luna, Riz Ahmed, Donnie Yen, Jiang Wen, Ben Mendelsohn, Mads Mikkelsen, Alan Tudyk

Apesar do apelo às massas, a saga Star Wars tem girado em redor das elites: há uma família muito especial no Universo, os Skywalkers, que produzem salvadores da galáxia a uma velocidade impressionante. Na verdade, temos visto mais estrelas do que guerras e quando as batalhas acontecem, envolvem normalmente sabres luzidios e ursinhos de peluche. Quando o Cruzador Imperial passa sobre as nossas cabeças durante o episódio IV, um clima de guerrilha espacial está implícito, mas nunca mostrado.

Com Rogue One, uma história de antologia dentro do universo criado por George Lucas, mas fora da sequência de episódios que compõe o núcleo de Star Wars, somos convidados a saltar para o campo de batalha com o soldado comum e a deixar para trás uma das famílias mais mal resolvidas da História do Cinema. Se Luke e Leia são caminhantes do céu, então os personagens deste Rogue One têm pés tão assentes na Terra que o calçado deixa pó para trás.

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O ponto de partida é simples: um grupo de indivíduos acaba por se reunir, muitas vezes por acasos, para culminar no roubo dos planos de uma nova arma de destruição maciça (que o fã sabe logo ser a Estrela da Morte). Entre eles encontra-se Jyn Erso, filha de um cientista crucial para o desenvolvimento da arma e chave para possibilitar a descoberta de informações sobre a mesma. Tudo o que mais se sucede acompanha esta espinha dorsal e o que há a relatar é que é mesmo bom.

Apesar das ligações ao universo da trilogia original, é também algo de novo – uma história de batalha e de guerrilha, suja no ecrã, com gente imperfeita a tentar fazer o melhor com aquilo que tem. Não há jedis à vista (quer dizer, há um, mas se viram os trailers saberão quem e já falaremos dele) e o combate é mais real e visceral. É a abordagem de terra nas unhas que Gareth Edwards traz aos procedimentos e é, talvez, o mais pesado filme da saga; e isto inclui The Empire Strikes Back. O humor existe, mas é quase sempre cínico e cortesia de um droide com dois metros e meio chamado K-2SO, que se torna numa das coisas mais memoráveis nesta obra.

Não se ouve o tema de John Williams (nem é ele quem compõe a banda sonora), não há os truques visuais habituais como pans laterais ou o uso de edição mais retro e está sempre permanente no filme uma espécie de agouro de que embora saibamos que a missão será bem sucedida, não quer dizer que as coisas acabem de facto bem. É uma tensão que percorre o filme e que torna a experiência de Rogue One, ao contrário da do Episódio VII, em algo de bastante mais imprevisível. Claro nunca nos sentimos completamente de fora (os cameos de personagens reconhecíveis são abundantes; Jyn Erso, tal como Luke Skywalker, é uma órfã com problemas mal resolvidos com o pai), mas sente-se uma tentativa de, pelo menos, dar novas cores à paleta. É como se a Disney quisesse recuperar o investimento de 4 biliões de dólares que fez na compra da LucasFilm indo-nos ao bolso, mas com classe e alguma dignidade, quase que dizendo «sim, nós sabemos que vais pagar em qualquer coisa que metamos estas duas palavrinhas mágicas, mas pelo menos convidamos-te a ver algo de novo». E por mim, fã me assumo e podem levar-me o dinheiro à vontade.

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Só o terceiro acto do filme, uma cena de batalha terra e espaço num planeta que parece as Maldivas (e que, por acaso, até é) vale o preço do bilhete: constrói a tensão gradualmente, mistura vários géneros desde a guerra ao heist movie e não só está bem filmado como o catano como mistura elementos velhos e novos de maneira fluída e natural. É a peça central do filme, o roubo dos planos, e todos os personagens têm o seu momento e a sua conclusão de arco narrativo e apesar de nalguns momentos a coisa se sentir demasiado forçada, como se cumprisse uma necessidade estipulada por quem escreve, tal acontece pouco. É o exemplo perfeito de como construir um espectáculo sem esquecer, com isso, as personagens e traz-nos a oportunidade gloriosa de ver um nave diminuta a arrasar duas outras dez vezes o seu tamanho com uma cabeçada. É de Gareth Edwards a maior responsabilidade. Apesar da relativa desilusão de Godzilla, nunca se questionou a habilidade que o galês tem para filmar estardalhaço com gosto e requinte (vejam Monsters e percebem porquê) e no geral faz as escolhas mais correctas: prescinde, por exemplo, de revelar informações antes do que acontece na primeira cena do filme, ao contrário do que é costume no cinema comercial americano, e ganhamos momentos tensos que estabelecem tudo o que precisamos de saber acerca da protagonista e do antagonista.

Falando neste, já alguma vez vos disse que Ben Mendelsohn é um actor que adoro? Porque ele cria aqui um vilão tão oleoso e detestável como só Mendelsohn consegue, um lacaio do Império ambicioso e patético, e por isso perigoso. A generalidade dos personagens não criam mossa e dependem dos próprios actores para sobressaírem. É impossível não destacar Donnie Yen como um monge cego que traz para o Espaço as mesmas habilidades de pancada que Yen exibe nos seus famosos filmes de acção em Hong-Kong, onde faz parte da trindade sagrada do género com Jackie Chan e Jet Li. Quando despacha um grupo de stormtroopers com o seu bastão e alguns pontapés lembra o samurai invisual japonês Zatoichi, personagem de muitos filmes orientais de artes marciais e faz regressar a inspiração que Kurosawa deu a Lucas quando concebeu a trilogia original.

Portanto, sim, Rogue One é bastante bom. Se tirássemos The Empire Strikes Back, seria provavelmente o melhor filme da série. O perigo está sempre iminente e tudo ameaça ruir. Talvez seja ocasionalmente sério demais, mas a força dos seus visuais, com cenários naturais incríveis e sequências plenas de impacto no espectador, transporta o espectador e ajuda a compensar essa falta de leveza.

É Star Wars, mas amplificado e revisto; e quando, perto do fim, um dos personagens principais da saga marca a sua presença e reclama o seu papel como supremo papão da galáxia, quase estragado por prequelas que nos fizeram ter medo do anúncio nesta nova prequela, tudo está bem na Força. O filme é um com a Força e a Força é um com este; e eu saí do cinema com um reforço de satisfação.


sobre o autor

Bruno Ricardo

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