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Julieta
Título Português: Julieta | Ano: 2016 | Duração: 96m | Género: Drama
País: Espanha | Realizador: Pedro Almodóvar | Elenco: Emma Suárez, Adriana Ugarte, Daniel Grao, Rossy de Palma

Há já muitos anos, um professor no ensino secundário disse-me numa conversa de intervalo que Pedro Almodóvar “era o cineasta oficial do Correio da Manhã”; na altura, tendo apenas visto o Todo Sobre Mi Madre, não percebi exactamente o alcance, já que o tablóide escandaloso nacional era ainda o 24 Horas (RIP). Passados estes anos e uma revista pela maioria da obra do castelhano, confirma-se: se é dramalhão corriqueiro, é passível de ser escrito e filmado por Almodóvar.

Falta um elemento, contudo: a Mulher. Desde Mujeres al borde de un ataque de nervios a Julieta, a Mulher é “O” tema almodovariano: está no centro dos planos (sempre fechados em Julieta), dos argumentos, quiçá na mente do realizador (para não ser só outrem a trazer Chabrol à colação) – é o fulcro da sua obra, um Cukor ibérico. Aqui, o cineasta adaptou livremente três contos da escritora canadiana Alice Munro.

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Temos, assim, Julieta Arcos (na meia-idade, por Emma Suárez), mulher atraente e burguesa – com planos de se mudar para Portugal. No meio da tralha encontra um envelope e aí começa a trama; acaba com o namorado, Lorenzo (Darío Grandinetti), muda de casa, especula sobre uma filha após encontrar uma amiga desta e, subitamente, somos projectados para um comboio, em 1985. Um homem mais velho mete conversa com Julieta (agora Adriana Ugarte). Esta foge para o bar e conhece Xoan (Daniel Grao), um jovem pescador. A morte do homem provoca neles tal adrenalina que se converte em desejo carnal – feromonas de Julieta e necessidades de Xoan, que tem a mulher em coma há anos. Desenvolve-se o romance entre a professora de Literatura Clássica (que não é uma queixinhas do politicamente correcto quando alvo de piropos dos alunos, antes estoirando-os à letra) e o pescador quase viúvo. Munida do seu penteado à Siouxsie Sioux, muda-se para Redes, a terra de Xoan, perante a acerbidade da lacónica Marian (Rossy de Palma, musa do cineasta), a empregada de Xoan. Nem parece um Almodóvar: casal feliz e sem dramas, com uma filha, Antía, a caminho. Para além do amor, a amizade: simbiose intelectual com Ava (Inma Cuesta), artista plástica local. Conta-lhe sobre a mitologia clássica enquanto Ava esculpe figuras humanas da mesma cor das rochas de Ferrol. Idílico. De pouca dura: uma visita à família, na Andaluzia, revela que a mãe (Susi Sánchez) vive acamada e o pai (Joaquín Notario), após a reforma, arranjou uma “ajudante” marroquina, Sanáa (Mariam Bachir), para ajudar na lavoura e a tomar conta da mãe, cuja memória se vai degradando. Na frente doméstica surge a tensão com Marian e Xoan – a amizade deste com Ava é agora vista com desconfiança por Julieta.

Aqui começa Almodóvar a jogar com os símbolos: fecham-se as nuvens em metáfora com a tormenta emocional de Julieta, eclode a tempestade e aí temos tragédia (previsível) à moda do realizador. Xoan morre na faina enquanto Antía está de férias e lá vai Julieta reconhecer um cadáver que ficou às peças. Um grande plano da tatuagem com as iniciais do casal confirma que o destino de Julieta já não passa pela Galiza – o desespero e depressão que levam à fuga como Ingrid Bergman em Stromboli.

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Julieta assemelha-se por esta altura a um thriller. Conhecemos Beatriz, a amiga de Antía que Julieta encontra no começo do filme, bem como a mãe. Madrid passa a ser a casa de Julieta e de Antía e aí reconstroem a vida – aparentemente. Após um banho, a metamorfose: a secagem do cabelo envelhece Julieta vinte anos. Os anos passam e Almodóvar carrega fundo no melodrama, atirando-nos com a doença terminal de Ava e revelações daí resultantes: as delações de Marian a Antía, o ódio desta contra a mãe e Ava. A partir daqui, Julieta torna-se em todo sobre mí hija.

Em vésperas de ingressar na Universidade, Antía desaparece num retiro de uma seita New Age, que trata Julieta com o desdém imbecil típico de zelotas que se guiam por cristais e demais tralha. Sem notícias da filha, a sua obsessão transforma-se em luto com o passar dos anos. O pathos da Mulher almodovariana em todo o seu esplendor. Contudo, reconstrói a vida com Lorenzo – a intensidade carnal já a leva para outros caminhos, bem longe da foto feliz com Antía, agora no fundo da gaveta, literal e emocional, de Julieta.

Regressamos ao início do filme após esta longa analepse e à apatia, agravada pelas notícias de que Julieta tem agora um irmão (!). Sem critério, Almodóvar saca de mais uma tragédia, a final: o atropelamento de Julieta, o culminar do Correio da Manhã cinematográfico. A redenção, porém: Antía escreve e inclui remetente. Mas Julieta já não se deixa paralisar e segue em frente para o reencontro, na companhia de quem não a abandonou, Lorenzo.

Julieta é um drama escorreito e telegráfico de argumento, de cinematografia sem alaridos e com as marcas distintivas de Almodóvar a que se aludiu. Candidato à Palma de Ouro, não é um filme de topo, mas sobressai em relação a outras obras recentes do género. Se a coisa correr mal, Julieta, terás sempre Portugal.


sobre o autor

José V. Raposo

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