MENUMENU

Entrevista


Ana Pinto Coelho

Acredito no cinema como uma das mais poderosas formas de expressão. O público vai à sala, vê o filme, fala dele. Nesse momento, começa a diminuir o estigma.


O MENTAL — Festival da Saúde Mental tem como propósito combater o tabu e o estigma que envolvem a saúde mental, trazendo-a à discussão pública através do cinema, das artes e da informação. A primeira edição do festival ocorreu de 9 a 12 de Novembro de 2017 e exibiu documentários premiados pelo IFF – International Film Festival 2017 e filmes que abordaram as temáticas borderline, prevenção, alzheimer e alcoolismo. A segunda edição arranca a 16 de Novembro e traz várias novidades. O Arte-Factos esteve à conversa com Ana Pinto Coelho, responsável pela direcção e curadoria do festival.

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Fale-nos um pouco do seu percurso.

Iniciei a minha carreira como produtora anos anos 80. Fui road-manager e produzi vários concertos e festivais (sobretudo de pop-rock) enquanto estudava Direito na Universidade Católica. Entretanto percebi que Direito não é Justiça e mudei de curso, para Marketing & Publicidade, no IADE. Tive uma agência de comunicação, na qual trabalhei 23 anos, sempre a produzir eventos na área cultural e empresarial, muitos deles premiados e sempre inéditos, desde programas de televisão, livros, lançamentos, eventos de grandes dimensões. E ao fim de muitos anos na coordenação, criação e produção de eventos artísticos e empresariais, cansei-me. Parecia que estava sempre a começar do zero. Aos 40 anos tirei o Diploma em Adiction Counselling, em Oxford – uma profissão que não existe ainda em Portugal.

O que a levou a interessar-se pela organização de um festival de cinema?

O facto de ter trabalhado com tanta gente e em áreas tão diversas – na agência, fazia também assessoria de imprensa – fez-me perceber que a saúde mental anda de braço dado com a vida das pessoas. As pessoas não sabem, ou não se apercebem destes problemas, até que um dia atingem o fundo do poço. Cruzei-me com inúmeras pessoas a quem isso aconteceu, sempre estive muito atenta a estas questões. Em tempos, uma supervisora disse-me que eu tinha um talento natural para o aconselhamento psicológico. Um dia, em Edimburgo, pego na agenda do mês da FilmHouse e vejo meia página com a programação do Scottish Mental Health Arts & Film Festival.

Foi essa então a grande inspiração para a criação de um festival do género em Portugal?

Foi imediato. A ideia cruzava tudo o que já tinha feito na vida: programação cultural, produção, comunicação e saúde mental. E Portugal tem um estigma brutal no que à saúde mental diz respeito. Brutal! E desinteresse, também. Ignorância provoca desinteresse.

Para além do Scottish Mental Health Arts & Film Festival, existem iniciativas semelhantes noutros países?

Há imensas! O Mental faz, desde Maio, parte da Nefele Network, uma rede europeia, com sede em Bruxelas, de festivais e projectos congéneres, focados no combate ao estigma na saúde mental através do Cinema e das Artes. O Mental acrescenta ainda o veículo da Informação (pública), porque aposta muito no apoio dos órgãos de comunicação social. Sem os jornalistas, nada disto faria sentido, porque são eles os principais responsáveis pela difusão desta informação.

Sendo os problemas de saúde mental uma realidade ainda estigmatizada, qual é o papel da cultura, em particular do cinema, na sensibilização para estas temáticas?

A meu ver, são o instrumento mais poderoso de sensibilização. O público gosta de cultura. Gosta de música, cinema, dança, teatro, literatura e festivais. Os trabalhos artísticos e os próprios artistas são, por isso, grandes veículos. Além de que a associação entre criatividade e saúde mental é mais do que reconhecida.

Como pode o cinema contribuir para desconstruir mitos em torno de saúde mental?

Acredito no cinema como uma das mais poderosas formas de expressão actuais. Como instrumento para construir e desconstruir ideias, movimentos, as mais variadas questões. Temos imensos filmes que se debruçam em temas relacionados com a saúde mental (sejam curtas, longas, documentários, animações) com excelentes abordagens. Prova disso foi o nosso Open Call deste ano! Pelo cinema, o público vai à sala, vê o filme, fala dele. E assim, de forma simples, discutem-se conceitos profundamente estigmatizados! Nesse momento, começa a diminuir o estigma.

Na sua opinião, quais são as principais especificidades da organização de um festival desta natureza?

Para a produção do Mental, e para o gostaríamos de fazer no futuro, a principal dificuldade é a falta de investidores. Em Portugal, juntar a cultura (desde sempre um parente pobre) e a saúde mental (outro parente pobre) é desastroso. E nós temos a atribuição de Manifesto Interesse Cultural, que na realidade acaba por não servir para nada. As instâncias não conhecem a multidisciplinariedade, não conhecem articulações, são fechadas e não percebem os projectos (acho que é falha de leitura atenta. Só pode ser!). Claro que encontrar apoios institucionais não foi nada complicado… com apenas uma edição do festival, já deixámos para trás várias instituições que querem estar associadas, mas na realidade não participam. Já financeiramente, mesmo as empresas que se afirmam com responsabilidade social, acabam por não investir.

Quais as entidades que se envolveram activamente em termos financeiros?

Obrigada por perguntar, porque eles merecem! Depois de um ano a procurar financiamento, temos a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, a Associação Mutualista Montepio Geral, a Junta de Freguesia do Lumiar, a Junta de Freguesia de Benfica e a Clínica da Mente. São poucos, mas é um começo! De resto, todo o trabalho que fazemos é pro bono. E não devia ser. É muito trabalho, muito qualificado, exigente e extremamente multidisciplinar. Somos muito poucos a fazer o festival, ninguém iria acreditar!

Qual foi a reacção do público à temática e missão do festival no ano passado?

A primeira edição teve um sucesso que, honestamente, não estava à espera. Quando directora do festival escocês me disse que levou anos a ter público que não fossem profissionais do sector, e verifiquei que nós o tivemos logo no primeiro ano o chamado “público em geral”, fiquei muito feliz! Uma vez mais, reforço que o trabalho de comunicação que fazemos em Portugal foi melhor do que o que tem sido noutros festivais congéneres internacionais. São eles próprios que o dizem. Vale portanto um agradecimento grande a todos os nossos media partners! O facto de ter trabalhado tantos anos em assessorias de imprensa é uma grande mais-valia. Só não fazemos mais porque há ainda imprensa muito pouco receptiva!

Quais são as principais novidades da 2ª edição do Mental?

Este ano abrimos o nosso próprio Open Call Internacional com um júri português de luxo (embora alguns elementos não vivam em Portugal), composto pelo Rui Henriques-Coimbra, o Eurico de Barros, a Catarina Belo, a Maria João Barros (representante da Ordem dos Psicólogos Portugueses) e o João Gata. A programação também aumentou consideravelmente. Tivemos quase 90 participações vidas de 22 países, nas categorias de ficção, documentário e animação. Estendemos as exibições a mais salas: o Auditório (Orlando Ribeiro (connosco já desde a 1ª edição graças à Junta de Freguesia do Lumiar), acrescentámos o Auditório Carlos Paredes (da Junta de Freguesia de Benfica), em Lisboa e o Auditório Almeida Garrett no Porto (aqui sem qualquer apoio, nem da Câmara). Para além da programação de cinema e das M-Talks, acrescentámos uma programação de dança, teatro e performance. Por fim, nesta 2ª edição continuamos a ter um dia totalmente dedicado à Prevenção em saúde mental, para as crianças, mas desta vez com teatro, M-Talk e cinema. Este ano teremos também a primeira edição literária com a chancela do Mental! As Aventuras de Mr. X- A Trilogia, de João Gata com ilustrações do Andreas Stocklein. É um livro de microcontos, editado com a colaboração do Programa Nacional para a Saúde Mental, e será lançado em Lisboa e Porto nos espaços Atmosfera Montepio. Mais não fazemos por falta de apoios…

Qual foi o critério para definir as temáticas em foco nesta 2ª edição (esquizofrenia, suicídio, ciberdependência e prevenção)?

Faço essa selecção sozinha. É um processo solitário, que implica investigação, um olhar diário pelas pessoas nas ruas, nos transportes públicos, uma atenção ao que ouço e a situações que observo. Não é uma decisão académica (eu não acredito nas estatísticas portuguesas, há muita coisa mal contada, do meu ponto de vista, reforço), mas antes um trabalho de observação. Acredito nas pessoas e no que vejo, a minha pesquisa cruza empatia, instinto, escuta activa e observação. Depois disto tudo, decido os temas.

Qual o contributo dos profissionais de saúde mental na criação artística que pretende comunicar estas temáticas?

O criador é livre! Para mim, um filme sobre saúde mental não tem que ser nem aborrecido, nem exaustivo, nem deprimente, nem académico. Há lugar para tudo! Mas a imagética, a música, o ambiente, são cruciais para comunicar. Seria muito bom se os profissionais de saúde mental pudessem trabalhar em conjunto com realizadores e produtores e que pudessem transformar aquilo que é informação académica num trabalho mais aberto, que pudesse chegar a mais pessoas.

Se tivesse que escolher um filme que espelhe o propósito do Mental, que filme escolheria?

Pergunta difícil! Há tantos… O Voando Sobre um Ninho de Cucos é um clássico. Ou o The Hours, o Memento, ou mesmo Laranja Mecânica.

Por fim, acredita que a sensibilidade para as questões de saúde/doença mental está de facto a alterar-se? Vivemos um momento de diminuição desse estigma?

Acredito, claro! A partir do momento em que temos o Programa Nacional para a Saúde Mental, na figura do Professor Miguel Xavier, a co-produzir o Mental, muito se avançou! Entender o papel do Mental enquanto estrutura atenta e activa da sociedade civil é muito bom. Falta apenas financiamento para crescer, ir a outras capitais de distrito, às ilhas. E manter a comunicação social alerta e presente todo ano, não só “quando é dia” ou uma figura pública tem uma depressão.

A “cara” do Mental somos todos nós!


sobre o autor

Edite Queiroz

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