Reportagem


Rodrigo y Gabriela

Aula Magna

24/04/2016


A ideia de assistir a um concerto de guitarra acústica só é apelativa a dois tipos de pessoas: os fanáticos de guitarra acústica e a quem ouviu o “Unplugged in New York” dos Nirvana até o CD ficar riscado e acreditou, desde 1994, que tinha tanta pinta a tocar viola quanto Kurt Cobain. No entanto, desde que surgiram em 2006 com o álbum homónimo, Rodrigo e Gabriela (ele Sanchez, ela Quintero) viraram ao contrário o que o público mais alargado espera de uma viola acústica. O passado de ambos como fãs e músicos de metal, cruzado com um dos instrumentos mais emblemáticos da cultura do seu país, o México, criou um estilo vigoroso e inovador, que tem ganho fãs não só entre metaleiros, que farejam as influências familiares na técnica, como os próprios amantes da guitarra. É por isso que, entre outros fãs e colaboradores, estão os nomes de Alex Skolnick, dos Testament, Roberto Trujillo, dos Metallica ou Al di Meola, considerado um dos grandes guitarristas da actualidade. Rodrigo e Gabriela são não apenas um produto de vários estilos, como da própria globalização: naturais do México, inspiram-se nos ritmos caribenhos e estilos musicais anglo-saxónicos, e surgem de súbito na Irlanda para ganharem reputação de virtuosos. Poucas bandas exemplificam melhor o espírito dos tempos em que vivemos.

A sua primeira presença em Portugal tem um motivo simples, uma simplicidade que marcou este concerto: fartos da clausura do estúdio onde estão a gravar o próximo álbum (ainda sem nome, mas que será o sucessor do excelente “9 dead alive”) decidiram marcar uma série de datas na Europa, preferencialmente em países onde nunca tivessem estado. A Aula Magna recebeu-os, e se temi que a sala não estivesse composta o suficiente, pois o duo não é um daqueles nomes com legiões de seguidores no nosso país, rapidamente deu para perceber que havia mais para além de mim que conhecesse a sua reputação. O tom de todo o espectáculo foi bastante informal: guitarras em punho, pausas para falar com a plateia (incluindo uma sessão de perguntas e um espaço para temas pedidos), cada um dos músicos com um termo de chá mesmo à mão e uma empatia imediata com quem assistia, principalmente através do entusiasmo e da simplicidade humilde de quem com dois instrumentos, arma a festa e se sente feliz com isso. Na conversa com o público, Rodrigo está mais à vontade, mas Gabriela desenrola-se em histórias pessoais que só não se tornam aborrecidas pela sua abertura em abordar a vida pessoal e o que a inspira (sabiam que aprendeu a tocar guitarra com um ex-namorado da irmã que era catequista e só sabia tocar canções do Senhor? Nem eu, mas foi um momento de candura e elevados graus de fofura). Não se pode dizer que tenha sido apenas um espectáculo musical: foi uma tertúlia com dois dos melhores músicos do mundo naquilo que tocam.

Os temas tocados variaram entre três álbuns (“Rodrigo y Gabriela”, “11:11” e “9 dead alive”), não faltando temas como “Hanuman” ou “Tamacun”, que são alguns dos seus mais conhecidos, e versões de “Orion”, dos Metallica e “Stairway to heaven”, dos Led Zeppelin, que se tornaram virais quando o duo surgiu na esfera pública. Basicamente, aquilo que os espectadores queriam ouvir foi entregue e passou pelo alinhamento a ideia de não complicar e proporcionar o espectáculo que todos esperavam; e tendo em conta o nicho dos seus fãs portugueses, foi a melhor opção. Houve tempo e espaço para improvisações e solos, magia dedilhada em cordas apertadas, e uma certa transcendência nos olhares como quem usa uma guitarra para invocar Quetzalcoatl: num momento que me ficou, juro que Gabriela fixou os olhos nos meus (que me encontrava encostado ao palco) e olhou para mim sem me ver. Estava perdida num momento claramente dela, mas cujo espírito pairava sobre espectadores que aplaudiram e saltaram e quase dançaram durante o espectáculo. Um dos grandes momentos da noite ocorreu quando a regra do “vale tudo” foi implementada: à pergunta “Quem quer vir ao palco?” uma vintena de índios saltou da plateia, para desespero dos seguranças, e invadiu o espaço dos músicos, formando um semi-círculo. Rodrigo e Gabriela simplesmente tocaram umas 3 ou 4 músicas quase em exclusivo para o grupo. É o tipo de experiência interactiva que a abordagem informal que estes mexicanos deram ao concerto permitiu e tornou mais forte a ligação entre estes e nós, público.

Houve tempo para ouvir dois temas novos (cantados, uma novidade na sua carreira) e uma interpretação surpresa de “Creep”, dos Radiohead. Um pouco como uma festa onde o pessoal se reúne em redor da fogueira e há sempre um gajo que sabe tocar guitarra e dedilha uns hits para o pessoal cantar. Rodrigo e Gabriela sabem como entreter o público (com sentido de humor: a certa altura, ele ameaçou tocar “More than words” dos Extreme para um riso nervoso da plateia) e acima de tudo são dois músicos do catano, que tiram de uma guitarra acústica não só o que querem, mas também o que nunca esperamos. O seu virtuosismo sustentou o concerto que, como os grandes encontros de amigos, deixou a promessa de regresso para o ano, com novos temas e um concerto mais estruturado; espero que sem nunca perder o lado comunitário destes dois excelentes representantes da alma latina em forma de notas musicais.


sobre o autor

Bruno Ricardo

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