Reportagem


Preoccupations + Névoa

A tensão dos canadianos Preoccupations e o negrume do portugueses Névoa encaixaram na perfeição na atmosfera densa a meia luz característica do Musicbox.

Musicbox

01/12/2016


© Alessio Boni

Há bandas que brilham mais em palcos modestos e com menos luz. A tensão dos canadianos Preoccupations e o negrume do portugueses Névoa encaixaram na perfeição na atmosfera densa a meia luz característica do Musicbox. O Musicbox que por estes dias comemorou o seu décimo aniversário, o que até parece pouco para os muitos concertos que já se viveram intensamente por ali e que me fazem concordar com o rapaz que ao meu lado questiona “10 anos? A mim parecem-me mais”.

E na primeira noite de aniversário fez-se novamente história com a estreia de Preoccupations em Lisboa. Ainda só tinham passado pelo norte do país, numa altura em que os conhecíamos como Viet Cong, o malfadado nome que lhes trouxe duras críticas e levou até a cancelamentos de concertos. É sempre difícil medir até que ponto a história, mesmo esta de sofrimento e tortura atroz de um povo, pode justificar uma imposição de limites à liberdade de escolha de algo como o nome de uma banda. Mas neste caso os rapazes de Calgary terão tomado a melhor decisão, arrumando o assunto com um novo nome, para que a tensão se concentre apenas onde interessa – na sua música.

Se ouvir um álbum de Preoccupations nos faz navegar entre ondas de ansiedade e inquietação do seu post punk, vê-los ao vivo é o libertar de toda essa tensão, numa catarse que, embora controlada, é carregada de electricidade e nos atinge o nervo onde dói, até o neutralizar. A voz de Matt Flegel acusa o final de uma digressão de nove semanas e “Anxiety”, que abre a noite, soa-nos ainda mais arrastada, com a natural rouquidão de Flegel agora exponenciada, a empurrar-nos para o vórtice dos seus pesadelos: “I’m spinning in a vacuum, deteriorating to great acclaim”. Segue-se “Silhouettes”, talvez a sua canção mais fácil de assimilar aos sentidos, que toda a sala reconhece com euforia, menos aquela pessoa que a meio do concerto ainda gritava pela música à banda. Mais atento estava o rapaz que gritou por “Memory” e que viu o seu pedido atendido, já tínhamos passado pela arritmia nervosa de “March Of Progress” e pela explosão colectiva de “Continental Shelf”. Até aqui, à excepção, de uns escassos “thank you”, pouca tinha sido a interacção com o público, que é o que se quer de uma banda que por vezes soa tão gelada como um cadáver. Até ao momento mais bem humorado da noite, quando Flegel exclama “Where did that come from? Thank you!”, ao se aperceber que os seus companheiros de banda partilhavam entre si um cigarro, “daqueles de enrolar”, cortesia de alguém da plateia.

Com uma setlist a dar primazia ao álbum deste ano, o homónimo Preoccupations, os canadianos optaram por fechar a noite com “Death”, do também homónimo Viet Cong de 2015. “Death”, que em álbum já conta com perto de onze minutos, ao vivo parece que nos hipnotizou durante uma eternidade. Desde o riff agonizante das guitarras de Daniel Christiansen e Scott Munro, até à explosão da bateria de Mike Wallace, perdemos a noção do tempo e de nós. Os canadianos despedem-se e já devem ansiar pelo regresso a casa, quanto a nós parece-nos ter ali deixado algo irremediavelmente perdido, “we went too far the other way, we’ll never get home”.

Já passavam alguns minutos das onze quando os portuenses Névoa subiram ao palco do Musicbox para o segundo concerto da noite. Talvez pela hora tardia ou pelo desconhecimento da banda, contaram com um público menor, mas nem por isso menos entusiasta. Após passagens pelo Amplifest, Reverence Valada e o holandês Le Guess Who?, chegou a vez de Lisboa conhecer o seu segundo álbum Re Un, que captou a atenção da editora italiana Avantgarde Music, que já editou bandas como Katatonia.

Sente-se algum nervosismo em palco, mas a execução é sublime e Ivo Madeira até consegue desenvencilhar-se rapidamente a trocar uma corda do baixo, provando que amadorismo não entra no vocabulário destes quatro amigos e que mais horas de palco só os farão crescer. Re Un é um álbum sério, onde se sente que a banda estruturou um caminho específico e mais afastado da pedalada agressiva do black metal do seu predecessor The Absence of Void. O seu doom metal castigador é como um rolo compressor que lentamente esmaga a plateia, fazendo recuar os mais fracos para as fileiras de trás e aproximando do palco os incautos que querem sentir o fenómeno de perto.

Foi uma noite de contrastes fortes, unidos de um sentimento comum, que a música não se fecha em rótulos e estilos, quando vivida intensamente é das poucas formas de arte capaz de nos confortar do caos dos dias, ao mesmo tempo que desconstrói certezas.


sobre o autor

Vera Brito

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