Reportagem


Deez Nuts + Grankapo + Reality Slap

Uma abordagem contraintuitiva à felicidade

RCA Club

22/04/2018


Continua a bonita relação poliamorosa entre o Arte-Factos, a HellXis e o RCA, desta feita o episódio do passado domingo contou com os Reality Slap e Grankapo a fazerem a abertura do certame com os Deez Nuts como cabecilhas da noite.

Os australianos trazem o seu hardcore das antípodas que tem tanto de orelhudo como de boa atitude. Tememos até estar a cair em estereótipos ao apontar o quão “boa onda” são estes cavalheiros que estão em palco a trocar palavras como se à volta duma Playstation a jogar Fifa (Madden? A versão rugby destes jogos?).

Mas antes, “ADHD, A Banda”.

Perdão, os Reality Slap.

Se os lisboetas não são a “gateway drug” do hardcore, não sabemos quem o é. Se os temas agressivos e pegajosos não convencerem os iniciados nestas lides, o “novelty bias”, virtude de músicas que caem na categoria do é-bom-não-foi, acaba por os converter.

“Quem é que nunca nos viu?” perguntava a voz dos Reality Slap. “Quem já nos conhece dê dois passinhos à frente; quem não nos conhece dê dois passinhos à frente.”

Reality Slap

Reality Slap

Houve mosh – “Born Wolf” para sempre-, festa, discursos sobre A CENA® – “O hardcore está sempre a mudar. Apoiem A CENA®, não venham só aos concertos grandes – e curiosidades satisfeitas. Por exemplo, como é que com tantas canções os Reality Slap não se confundem. Resposta: confundem-se. Nada de grave e teve mais graça do que não.

Concerto curto, como se quer, que fez daqueles que levantaram as estreantes mãos em fãs.

Seguir-se-iam os Grankapo, veteranos destes certames desde 2006. Para contexto, a carreira dos Grankapo é contemporânea da carreira de selecção do Pauleta.

Músicas mais directas, menos nuance, mas robustez alinhada com o resto da noite, foi a receita para este concerto. Cansaço, ou não, a verdade é que, infelizmente, a energia em palco não traduziu perfeitamente para o resto do RCA. À pergunta “querem correr um bocado” a resposta veio tímida. “Ontem, no Porto foi bom; aqui, eu disse aos Deez Nuts que ia ser melhor.” A promessa parecia tremida. Mas a verdade é que temos vindo a ser mal-habituados nesta casa. Voltamos sempre com histórias de concertos incríveis que quando um concerto é só “Bom+” parece uma coisa má. Não é.

Grankapo

Grankapo

No entanto, os Deez Nuts poderiam estar descansados. Não foi preciso chamar ninguém à frente que, ainda a banda não estava em palco, já uma turba se precipitava nessa direcção.

Há uma frase que marca a noite. Como J.J. Peters repetiria várias vezes: “We apreciate you”. O que a torna particularmente interessante é a abordagem contraintuitiva que a banda tem às exibições de apreço. “Don’t take offense if I turn my back,” começava J.J. “We like to talk amongst ourselves about the fucking good time we are having.”

Ok, nada de grave.

“I like to say ‘this one goes out to you‘, but I don’t know you like I know us so this goes out to us.”

Que génio.

Claro que o punk é sempre contra-cultura, mas isto é o modo super sayan da subversão. A melhor das pérolas chega quando J.J. conduz uma sondagem e pergunta ao público se quer uma malha nova ou antiga. A resposta é um rotundo “old stuff”, porque claro que é. “It’s always the same fuckin’ answer. But I think we made an awesome new record so we’re gonna play a new song and you will learn to love it.”

Deez Nuts

É honesto. É brutal. Mas torna credível tudo o que os Deez Nuts representam. Sim, não há tanto “pandering,” mas quando o homem do leme dos australianos nos diz que só há uma coisa que lhes interessa, uma única razão para terem viajado sabe Deus quantos quilómetros, que o público se divirta. “And I’m gonna interrupt the concert a few times to make sure you’re having fun, ‘cause if you’re not, we have to do something different.”

Foi preciso fazerem algo diferente? Nem por isso. A energia nunca esmoreceu, o mosh nunca parou e em “Band Of Brothers” até houve direito a um coro mais musculado com o RCA a parar para acompanhar a voz do – não presente – Sam Carter.

Mais destes loucos, por favor. Nós apreciamos.

Galeria


(Fotos por Hugo Rodrigues)

sobre o autor

Jorge De Almeida

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