Os ingleses Black Country, New Road, quiçá mercê do seu nome, provindo de uma pesquisa aleatória na Wikipédia sobre uma estrada quase homónima (falta a vírgula) em Inglaterra, são uma banda que é, ela própria, um caminho. Iconoclastas e sapientes (ou não fossem de Cambridge) nas ideias, transcendem as fórmulas e convenções (este concerto, avisamos já, relegou as guitarras eléctricas para, no mínimo, terceiro plano), colaboraram com outras bandas com assunto (como os black MIDI, fazendo parte da cena do The Windmill, sala de concertos londrina) e pelo meio tornaram-se numa das mais interessantes bandas dos dias que correm.
Independentemente da opinião que se tem sobre o seu novo álbum, Forever Howlong é uma guinada valente numa carreira que já conta com três delas; insere-se no risco artístico (por vezes não é nada disto, só mesmo indulgência profunda) que as grandes bandas e artistas tomam, como foi o caso da inversão de marcha dos Ulver a partir de certa altura, da obra de Miles Davis, da carreira dos Pop Dell’Arte, dos Clash (sobretudo em Sandinista!) ou de uma catrefada de outras bandas aventureiras. No tocante a compatriotas contemporâneos, os Caroline são o exemplo mais próximo de uma banda britânica da actualidade com o mesmo grau de experimentalismo sonoro, atentas as similitudes na instrumentação e na curiosidade sónica.
Aproveitamos para confessar que esta não era bem a versão dos Black Country, New Road que queríamos ver (há meia década que os tínhamos como borrego a matar); a total ausência de material de For the First Time e Ants from Up There revelou-se, prima facie, frustrante. Trata-se de dois discaços que revelaram uma banda tremenda, com uma atitude bem punk mas uma abordagem que dispara numa data de direcções.
Enquanto a plateia aguardava por música popular com assunto do presente, no PA a do passado era relembrada com The Ballad of El Goodo dos Big Star. Bons auspícios, sem dúvida, para um concerto que, à conta de Forever Howlong, prometia não perder nenhuma da intensidade ao vivo dos seus antecessores.
Após uma breve saudação que incluiu um elogio a Coura (já lhes perdemos a conta nesta edição) e um pedido de desculpa pela falta de português na sua comunicação, a banda colocou a carne toda colocada no assador e atirou-se a Two Horses. O bandolim e a voz de Georgia Ellery deram início a um malhão com dois andamentos, separados por um crescendo no qual o prato de choque e o piano foram o elo de ligação para uma segunda parte fulgurante.
No seguimento de dois discos em que a tónica foi colocada nas vozes masculinas (incluindo a de Isaac Wood, que entretanto saiu da banda) do grupo, eis que as femininas tomam a dianteira. Para além de Ellery, Tyler Hyde (que sai ao pai, vão ver quem é) e May Kershaw conduzem a transmissão das letras, partilhando democraticamente os microfones e harmonizando brilhantemente as vozes.
Depois de André 3000 no ano passado, domar com música quase meditativa e cujos crescendos não são imediatamente avalassadores uma multidão que tantas vezes quer é porrada e andar aos saltos é obra. Num festival que tantas vezes pede riffs para levantar multidões ter uma banda que coloca um bandolim no comando é porque podemos estar em presença de uns trolls, de uma burla artística ou de um bandão que corre riscos e que tem aqui uma grande recompensa que partilha connosco (é esta opção): a de dar um concerto sublime. O público, esse, aplaude, assobia e puxa pela banda. A falta de ortodoxia sonora é mesmo a maior força motriz desta banda, com a repartição de composição das canções a reflectir as ideias de cada membro num salutar (para os nossos ouvidos, claro) caldo democrático sónico.
Aqui chegados, teríamos sempre vontade de ver o cancioneiro dos dois primeiros álbuns do grupo ser tocado in loco. No entanto, longe de ser uma lambardana de barroquismo pop, o concerto não deixou de ir surpreendendo, até porque, acentue-se, o bucolismo do seu mais recente material combina maravilhosamente com a paisagem de Coura.
De setentas estão aqui os Genesis do tempo de Peter Gabriel e os Soft Machine de Fourth, de oitentas a bênção intemporal de Kate Bush e dos noventas o melhor dos Belle & Sebastian e dos Blur, encimados obviamente por uma grande dose de talento e inspiração e de um quase academismo na experimentação. Numa fenomenal Nancy Tries to Take the Night dá-se o encontro de tudo isto: um desfiar que culmina lá para o meio numa base rítmica que emerge e é autenticamente abraçada por arpejos que musicam versos sobre o trauma da morte, com recurso, na letra, a vocabulário de Shakespeare (“anon, anon”). Sem necessidade de riffs brutos da xixa nem de acelerar tempos, a intensidade do concerto mantinha-se elevada – se bem que a verve por vezes vinha por aí abaixo, muito por “culpa” das próprias faixas.
Numa banda que merece destaque na totalidade dos seus membros, selecciona-se Lewis Evans, secção de sopros de um lad só; sustentáculo sónico da banda desde o primeiro disco, assegura quer o pathos, quer o êxtase da música dos Black Country, New Road. Se já sabíamos que o saxofone em coisas com guitarras era sinónimo de fixeza, o grupo incorpora o instrumento com mestria no seu som, levando-o para lá de mero apêndice e tornando-o peça central da maioria do seu repertório.
Não sabemos se algum dos milhares de presentes fazia anos, mas pode sempre dizer que recebeu Happy Birthday de prenda. Canção sobre gente ingrata sem noção de quão boa é a sua vida (“many people would give an arm and a limb to live where you live”), os seus quatro demolidores minutos foram um ponto alto de, como costumamos dizer, um concerto cheio deles.
A aula de flauta do quinto ano de Forever Howlong, faixa homónima do disco a ser passado em revista, não se ficou apenas pelas harmonias daquele instrumento, executadas por todos os membros. Todos menos May Kershaw, que numa grande execução na voz lembrou-nos, a espaços, a de Shirley Collins, grande senhora da folk inglesa e óbvia influência nesta fase do grupo.
Como se fossem peregrinos d’Os Contos de Cantuária, os Black Country, New Road contam-nos uma derradeira história, a do cavaleiro caído na dúvida e na desgraça de For The Cold Country, numa interpretação excepcional, em particular a de Kershaw, cuja voz e piano lideram uma carga instrumental onde a alma do ensemble está exposta. Final com grandioso enlevo (passe o pleonasmo), num cumprimento de promessa de que afinal este disco da banda ainda tem umas quantas explosões para distribuir.
Numa actuação que teve virtuosismo e excelência em partes quase iguais com titubeância na verve (sem esquecer as ausências do alinhamento), o concerto dos Black Country, New Road foi um grande momento no lugar certo. For the Coura country, mas não se esqueçam dos sapatos de basquetebol e deixem o Kanye de fora disto.