Ainda não dá para precisar em que etapa desta atenção a um determinado tipo de death metal estamos, aquele menos ortodoxo, mais cerebral e que muitos já oficializaram o termo “dissonante” como parte do subgénero. Se ainda estamos na parte do deslumbre ou se já não estará a saturação aí à espreita. Se for o caso e já não sentem que vão ficar impressionados com alguma nova proposta de death metal alienígena de adoração a Blood Incantation, não deixem fugir aqui os nosso Undersave. Que fazem uma vertente diferente de algo que se pode aproximar disso e já o andam a fazer há algum tempo.
“Merged in Abstract Perdition” é já o terceiro álbum deste colectivo e continua uma progressão sonora. São três discos espaçados portanto também se vai passando muita coisa pelo meio para que a banda tenha novas influências às quais recorrer. Se a base antes era um death metal mais técnico e desafiante, que lembre os clássicos disso como Gorguts ou Ulcerate, isso mantém-se. Mas mutou sempre, inserindo coisas de doom mais cavernoso de Incantation, ou algum black para a atmosfera, chegando agora a esste “Merged in Abstract Perdition”, um título que parece realmente definir a parede sonora assustadora que aqui se encontra. Já se actualizou para ir ao encontro da tal onda, já com algumas maluqueiras à Imperial Triumphant mais contidas, e um peso envolto em negrume à VoidCeremony. Mas não vieram copiar alguém. Parece mais a dizer que, se quisessem, já tinham feito disto antes que muitos.
Até porque não se encosta a esses truques já conhecidos. Desafiam-se a si próprios e às estruturas das próprias canções, nunca usuais ou previsíveis. O convívio do peso dos riffs com a atmosfera tanto pode ser em conjunto, como à vez, com introduções e passagens lentas a servir de falso alarme, a prometer uma calma que nunca entregam. O caos estende-se aos próprios riffs, recorrendo a tremolos que, aproximando-se do que fariam os Immolation, acabam por não soar parecido a qualquer outra coisa que aí ande; e também à voz, com os guturais de Nuno Braz a alternar com uns aterradores guinchos, como dois monstros a tentar devorar-se um ao outro. Se musicássemos a maior fusão de terror e ficção científica, se quiséssemos uma obra de death metal técnico sem virtuosismos masturbatórios sem nexo, ou algo no death metal mais brutal sem ser oco, tinha que sair um monstro que não identificássemos logo. Que podia ser este “Merged in Abstract Perdition”. Só temos que nos habituar e vê-lo a crescer.

