“A Sea of Floating Mirrors” é o novo disco de Soundscapism Inc., um nome que já não é novo, nem sequer assim tão discreto, já capaz de agarrar muito ouvinte que procure uma sonoridade menos vulgar, mais cerebral, mas que consiga ser acolhedora. Podiam ter a dificuldade em serem encaixotados nalguma cena como obstáculo, mas não parece. Pelo contrário, há total liberdade. Reforçada ainda mais com este disco.
Novo retoque na abordagem destas canções. Que estão mais atrás desse mesmo estatuto: o de canções. Mais directas e mais pesadas. Tendo Bruno A. sido capaz, desde início, de se afastar dos seus Vertigo Steps, aqui em “A Sea of Floating Mirrors” volta a aproximar-se. Metaliza um pouco mais as suas canções, tornando-se intensas quando são mais directas, como é o caso de “All the Rage” ou “Rust and Sawdust”. “Lightbringers & Rainmakers”, por exemplo, tem tanto de upbeat como de melancólico e sugere-nos algo de Katatonia. Mas não nos deixa ficar com a impressão inicial de que é o disco mais orientado por guitarra. Não dispensa a textura electrónica, especialmente para algo mais ambiental como “Glimpse of the Infinite”, ainda mais no seu final tão pós-rock e tão Radiohead dessa vertente.
Enquanto não conseguimos muito bem situar onde se encontra na escala da melancolia, vemos muito paralelismo com Anathema. Mas com um pouco mais de luz. Não faltam as melodias dreamy, no que “Venomous Hand of a Nightmare” é exemplar e um grande destaque deste alinhamento; não faltam as canções mais atmosféricas, mas de estrutura mais convencional, como em discos anteriores; e interlúdios ambientais ao estilo Devin Townsend, quando também se vira para aí. Uma variedade que não nos deixa tentar simplificar as coisas e dizer se este é o álbum mais pesado, se é o mais ambiental, se é sequer o mais electrónico ou o mais soturno. Se calhar até é o mais solarengo. É a mistura que torna “A Sea of Floating Mirrors” especial, música progressiva e desafiante sem se deixar cair na auto-indulgência, e com muita coisa acessível para levar gravada na cabeça depois de ouvir. Para quem tem saudades dos Vertigo Steps, para quem acha que realmente o Steven Wilson já é um pouco chatinho, ou para quem acha que os Anathema realmente podiam animar-se um bocadinho.

