Não haverá banda com uma história tão conturbada como os Mayhem. Dos mais famosos (e infames) actos obscuros por acumular, dentro da sua própria história, tudo o que se possa arranjar de violento, macabro, trágico, estranho, e mais outros adjectivos assim tão apelativos. Seria fácil, e até natural, que ofuscasse qualquer do seu contributo musical. Mas não. Têm um legado que cobre completamente os podres, música que até consegue absorver os bons adjectivos das linhas acima, mas que transcende toda e qualquer controvérsia. E tantos anos depois, “Liturgy of Death” é mais um petardo certeiro. Nada abala os Mayhem.
E “Liturgy of Death” até pode seguir exactamente o mesmo trajecto de “Daemon” e “Esoteric Warfare” mas sem repetições. É mesmo como um monstro mutante que se agiganta mais a cada passo. O negrume fica mais denso, os riffs parecem mais violentos ainda e a atmosfera mantém-se com a mesma claridade de sempre. Com a sobreutilização do termo “dissonante” para aqui e para ali, todo o “Liturgy of Death” lembra que os Mayhem já andam a brincar com isso há muito tempo. E, ao que parece, até com a sua própria linha temporal. É claro que toda aquela crueza, e até mesmo amadorismo, dos negros e selvagens dias iniciais foi muito influente mas já não dá para ser novamente alcançada. Nada voltará a soar ao “Deathcrush”. Mas “Liturgy of Death”, tão próximo que soe dos seus antecessores directos, também será o que mais se aproxima do mítico “De Mysteriis Dom Sathanas”. É para lá que vamos, direitinhos e possuídos, com o ambiente de “The Sentence of Absolution”, por exemplo.
Mas antes dessa conclusão tenebrosa e tribal, existe um curto conjunto de canções que servem de cartão de visita para o tipo de black metal que os Mayhem praticam – prototípico que seja, nunca apareceu um seguidor a soar igual a eles. A preferência pela densidade em vez dos tremolos, o mais intimidante dos recursos a vozes limpas e um Attila a soar cada vez mais doentio. É Mayhem no seu “normal” mas cimenta como a sua linha temporal não funciona da mesma forma que as outras: o seu início, o seu fim, as experimentações pelo meio, todas elas ocupam algo cósmico, que vá para além do tempo e até do espaço. Uma discografia que soa tão radicalmente diferente, mas que se mantém sempre igual a si própria. Que importam lá os homicídios e os suicídios e as igrejas e mais-não-sei-o-quê, quando os Mayhem são a banda que faz um disco tão desafiante e memorável como este?

