Parece que é novamente altura para cumprirmos aquela obrigação de falar da distinção de actos sobreviventes, dos que impõem uma moda e os que a seguem, dos que têm uma certa sonoridade com genuinidade em vez de seguirem apenas uma gimmick, dos que soam intemporais em vez de intencionalmente datados. Essa cena toda quando há novo disco de uma das principais e mais representativas bandas revivalistas (palavrão forte, mas “retro” pode ser pior). No caso de “Fever”, é já o sétimo dos célebres Graveyard, portanto também já não deve haver muito mais por descobrir.
Daí que “Fever” não seja um álbum de novidades (ainda por cima é rock setentista, lembrem-se, é o contrário de inventivo), mas é um registo de uma maturidade imensa, e de quem já tem algum conforto na sua posição cimeira em toda uma cena, sem a dar como garantida. Hard rock de bigodaça farta, blues de cigarro na boca, e um psicadélico de quem está a ver mais cores do que nós, os sóbrios. Aproveitam que não estão realmente naqueles tempos e já existem mais truques, que até já conhecem, e ao fuzz todo da altura, acrescentam uma força nas guitarras de causar inveja aos mais dedicados do stoner actual. E umas malhas mais fortes e rápidas como “Tongue Tied” ou “Year of the Horse” até puxam mais para um garage rock, meio protopunk, que também não podia ser desta época.
Sem aprofundar muito, que também não é assim tão necessário, notamos que temos simplesmente um álbum de Graveyard em mãos. Mais um, sem que isso se torne depreciativo. Porque têm uma invejável discografia consistente. Com a tal consistência que dá aquele conforto para soarem tão fiéis a si próprios ao sétimo álbum. E para nos fazer resgatar a conversa do costume: estes fazem a coisa do revivalismo bem, e por isso ainda aí andam, nesta forma, enquanto tantos seguidores mais esquecíveis não estão sequer à vista. Está aqui uma febre sem sintomas nocivos.