Nesta era da saturação de inteligência artificial e todo o tipo de trapaças estapafúrdias que dela vêm, com um excesso visual que já nem estas páginas conseguem evitar hospedar, até é curioso olhar para aquilo que chamaram de “banda virtual” há mais de 25 anos e ver o trabalho (humano) que foi preciso para criar o universo dos Gorillaz, que chegam a mais um disco ambicioso. “The Mountain”, uma escalada pessoal e uma paisagem sonora e visual, e mais um capítulo na história do nosso quarteto musical animado favorito.

Podem existir temores de excessos, mais uma vez. Porque extravagantes são eles. Claro que sempre tiveram os seus discos repletos de convidados, que são uma parte tão central como qualquer outra, mas desde a mixórdia mais desconexa de “Humanz” que pode temer-se mais um trabalho em que esses excessos engulam tudo e mal detectemos os Gorillaz no meio dos escombros. “The Mountain”, no entanto, parece tentar corrigir esse erro. Como se quisessem refazer essa experiência, mas agora com mais atenção ao que está no plano principal e ao que é secundário. E mais canções memoráveis. Que é o forte de Damon Albarn e que acaba por ser a verdadeira alma da música dos Gorillaz: saímos daqui com melodias impressionantes bem agarradas à cabeça, com “The Happy Dictator”, na companhia dos veteranos Sparks, ou “Orange County” a serem os exemplos mais evidentes e garantidos, mas não únicos.

A nível conceptual, Albarn volta a servir-se da perda e do luto para uma experiência espiritual, que não soe a qualquer uma das outras que já o tenha inspirado anteriormente. Com uma viagem espiritual e geográfica pelo mundo fora (pelo Médio Oriente, muito pela Índia, onde esteve realmente quando preparava este disco, com um escape latino como o de “The Manifesto” e com a ousadia de chamar os IDLES para acompanhar numa excursão meio reggae que é “The God of Lying”). Com Anoushka Shankar, convidada mais omnipresente no disco, a brilhar na sitar e a legitimizar a atmosfera, para que também não soe àquele disco pretensioso de world music que muito artista tem que fazer de vez em quando. Toda a instrumentalização a conviver com o synthpop que já tem sido a sua marca ultimamente e o hip hop ao qual deram outro brilho desde que colocaram malta de outras ondas a cantar a “Clint Eastwood”. Claro que, na sua longa duração, terá alguns pontos em que a atenção se dispersará um pouco mais mas, no geral, “The Mountain” pode ser o melhor disco dos Gorillaz em algum tempo. Já não é a surpresa, revelação e inovação do auto-intitulado de estreia, a redefinição tanto da música popular como da música alternativa como foi o magnum opusDemon Days”, nem a introdução a outro nível fantasioso e misterioso como foi “Plastic Beach”. Trifecta intocável. O seu parente mais próximo será mesmo o “Cracker Island” mas a aperfeiçoar algumas ideias, sem se conter nas ambições. E quem diria que seria a tal banda virtual a lançar um disco tão humano hoje em dia.


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